Leonardo Boff diz entender os excessos de Ciro pelo “caráter iracundo” dele

Boff afirma que os partidos precisam fazer autocríticas

Géssica Brandino
Yahoo Notícias(Folha Press)

O teólogo, filósofo e escritor, Leonardo Boff, 88 anos, respondeu às declarações do ex-candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT), que em entrevista à Folha de S.Paulo o chamou de “um bosta” e “bajulador”, além de insinuar que ele não havia criticado o mensalão e o petrolão.

“Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que ‘tem sobriedade e modéstia'”, disse.

COLÉGIO DE LÍDERES – Apesar da fala de Ciro, Boff defendeu a participação do político numa “espécie de colégio de líderes, vindos das várias partes de nosso país continental, para que as resistências e oposições tenham sua base em vários estados e não apenas naqueles econômica e politicamente mais relevantes”.

Um dos iniciadores da Teologia da Libertação, Boff falou com a reportagem por e-mail e fez uma análise sobre o papel da esquerda após a eleição de Jair Bolsonaro (PSL).

“Creio que agora a situação é tão dramática que precisamos de uma Arca de Noé onde todos nós possamos nos abrigar, abstraindo das diferentes extrações ideológicas, para não sermos tragados pelo dilúvio da irracionalidade”, afirmou, dizendo que disse a situação requer uma autocrítica. “Penso que todos os partidos têm que se reinventar sobre bases éticas e morais mais sustentáveis. Toda crise acrisola, nos faz pensar e crescer”.

Como o senhor responde às declarações do ex-candidato à Presidência Ciro Gomes durante entrevista à Folha de S.Paulo?
Considero Ciro Gomes uma das maiores e imprescindíveis lideranças do Brasil. Ele é importante para a manutenção da democracia e dos direitos sociais. Ele ajuda a alargar os horizontes dos problemas que enfrentamos com o seu olhar próprio. O que faz e diz é dito e feito com paixão. Entretanto, a paixão necessária nem sempre é um bom conselheiro. Creio que foi o caso de sua crítica a mim chamando-me com um qualificativo que não o honra. Minha posição é dos filósofos, dentre os quais me conto: nem rir nem chorar, procurar entender. Entendo seu excesso a partir de seu caráter iracundo, embora na entrevista afirma que “tem sobriedade e modéstia”. Sigo a sentença dos mestres espirituais: “se não entender o que alguém diz a seu respeito tenha pelo menos misericórdia”, virtude central do cristianismo assumida, decididamente, pelo Papa Francisco. Procuro viver essa virtude.

Ciro questionou sua opinião sobre o mensalão e o petrolão. Sobre o “mensalão” e o “petrolão” sempre fui crítico. Mostrei-o em meus artigos publicados no Jornal do Brasil online, onde escrevi, semanalmente, durante 18 anos. Todos eles estão no meu blog onde se pode conferir. Aconselho ao ex-ministro que leia o livro que publiquei a partir da atual crise brasileira: “Brasil: concluir a refundação ou prolongar a dependência”, com 265 páginas, editado pela Editora Vozes neste ano. Leia, por favor, o capítulo “Os equívocos e erros do PT e o sonho de Lula”, das páginas 89-96 e em outras passagens. Um intelectual, ciente de sua missão, não pode deixar de criticar malfeitos, venham de onde vierem. Assim o fiz em todo o tempo.

Na entrevista Ciro o chama de bajulador.
Não me incluo entre os eventuais bajuladores de Lula. Nunca fui filiado ao PT por convicção, pois, o ofício do pensar filosófico e teológico não pode se restringir à parte, donde vem partido, mas deve procurar pensar o todo e a parte dentro do todo. Somos eu e Frei Betto (também não filiado ao PT) amigos de Lula de longa data, desde o tempo em que organizava as greves e a resistência à ditadura militar. Portanto, bem antes de ser político e presidente. Todas as vezes que o encontrávamos em Brasília, eu e minha companheira Márcia, fazíamos-lhe críticas, por vezes tão duras por parte de Márcia que tinha que dar chutes em sua perna, por debaixo da mesa, para se moderar. Tanto ele como nós fazíamos as críticas como amigos sinceros fazem entre si. Os amigos se criticam olhos nos olhos para construir, os adversários o fazem pelas costas para destruir. E assim o entendia Lula. Somos amigos-irmãos que têm os mesmos sonhos e os mesmos propósitos fundamentais., Frei Betto era igualmente duro na crítica, não obstante a grande amizade que os unia e une.

A urgência da “Paz e Bem” que São Francisco de Assis sempre desejou

Imagem relacionadaLeonardo Boff

No nosso país, dentro de um ambiente de muito ódio, destruição de biografias e mentiras de todo tipo, vale recorrer ao espírito de São Francisco de Assis, à sua famosa oração pela paz e à sua saudação de Paz e Bem. Era um ser que havia purificado seu coração de toda a dimensão de sombra, tornando-se “o coração universal… porque para ele qualquer criatura era uma irmã, unida a ela por laços de carinho” como escreveu o Papa Francisco em sua encíclica ecológica (n.10 e 11). Por onde quer que passasse, saudava as pessoas com o seu ”Paz e Bem”, saudação que ficou na história especialmente dos frades que começam suas cartas desejando Paz e Bem.

Construiu laços de paz e de fraternidade com o Senhor irmão Sol, e com a senhora Mãe Terra. Essa figura singular, seja talvez uma das mais luminosas que o Cristianismo e o próprio Ocidente já produziram. Há quem o chame de o “último cristão” ou o “primeiro depois do Único” quer dizer, de Jesus Cristo.

PAPA FRANCISCO – Seguramente podemos dizer: quando o Cardeal Bergoglio escolheu nome de Francisco quis sinalizar um projeto de sociedade pacifica, de irmãos e irmãs, reconciliados com todos os irmãos e irmas da natureza e de todos os povos. A mesmo tempo, pensou numa Igreja na linha do espírito de São Francisco. Este era o oposto do projeto de Igreja de seu tempo que se expressava pelo poder temporal sobre quase toda a Europa até a Rússia, por imensas catedrais, suntuosos palácios e grandes abadias.

São Francisco optou por viver o evangelho puro, ao pé da letra, na mais radical pobreza, numa simplicidade quase ingênua, numa humildade que o colocava junto à Terra, no nível dos mais desprezados da sociedade vivendo entre os hansenianos e comendo com eles da mesma escudela.

CRISTO POBRE – Para aquele tipo de Igreja e de sociedade, confessa explicitamente: “quero ser um ‘novellus pazzus’, um novo louco”: louco pelo Cristo pobre e pela “senhora dama” pobreza, como expressão de total liberdade: nada ser, nada ter, nada poder, nada pretender. Atribui-se a ele a frase: “desejo pouco e o pouco que desejo é pouco”. Na verdade era nada. Considerava-se “idiota, mesquinho, miserável e vil”.

A despeito de todas as pressões de Roma e as internas dos próprios confrades que queriam conventos e regras, nunca renunciou ao eu sonho de seguir radicalmente o Jesus, pobre junto com os mais pobres.

A humildade ilimitada e a pobreza radical lhe permitiram uma experiência que vem ao encontro de nossas indagações: é possível resgatar o cuidado e o respeito para com a natureza? É possível uma sociedade sem ódios que inclua a todos, como ele o fez: com o sultão do Egito que encontrou na cruzada, com o bando de salteadores, como lobo feroz de Gúbbio e até com a irmã morte?

SEMPRE HUMILDE – Francisco mostrou esta possibilidade e sua realização, ao fazer-se radicalmente humilde. Colocou-se no mesmo chão (húmus=humildade) e ao pé de cada criatura, considerando-a sua irmã. Inaugurou uma fraternidade sem fronteiras: para baixo com os últimos, para os lados com os demais semelhantes, independente se eram Papas ou servos da gleba, para cima com o sol, a lua e as estrelas, filhos e filhas do mesmo Pai bom.

A pobreza e a humildade assim praticadas não têm nada de beatice. Supõem algo prévio: o respeito ilimitado diante de cada ser. Cheio de devoção, tirava a minhoca do caminho para não ser pisada, enfaixava um galhinho quebrado para que se recuperasse, alimentava no inverno as abelhas que esvoaçam por aí, famintas.

Não negou o húmus original e as raízes obscuras de onde todos viemos. Ao renunciar a qualquer posse de bens ou de interesses ia ao encontro dos outros com as mãos vazias e o coracão puro, oferecendo-lhes apenas o Paz e Bem, a cortesia, e o amor cheio de e ternura.

PAZ UNIVERSAL – A comunidade de paz universal surge quando nos colocamos com grande humildade no seio da criação, respeitando todas as formas de vida e cada um dos seres pois todos possuem um valor em si mesmo, antes de qualquer uso humano. Essa comunidade cósmica, fundada no respeito ilimitado, constitui o pressuposto necessário para fraternidade humana, hoje abalada pelo ódio e pela discriminação dos mais vulneráveis de nosso país. Sem esse respeito e essa fraternidade dificilmente a Constituição a Declaração dos Direitos Humanos terão eficácia. Haverá sempre violações, por razões étnicas, de gênero, de religião e outras.

Este espírito de paz e fraternidade, poderá animar nossa preocupação ecológica de salvaguarda de cada espécie, de cada animal ou planta, pois são nossos irmãos e irmãs. Sem a fraternidade real nunca chegaremos a formar a família humana que habita a “irmã e Mãe Terra”, nossa Casa Comum, com cuidado.

Essa fraternidade de paz é realizável. Todos somos sapiens e demens mas podemos fazer com que o sapiens em nós humanize nossa sociedade dividida que deverá repetir: ”Onde há ódio que eu leve o amor”.

Ciro está perdendo de novo a eleição mais fácil dos últimos tempos

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Ciro continua imaturo e acaba perdendo votos

Carlos Newton

Como tudo na vida, a política é feita de detalhes e pode mudar de rumo com facilidade. Em 2002, concorrendo pelo PPS tendo como vice o sindicalista Paulinho da Força, do PTB, Ciro Gomes tinha tudo para vencer a eleição. Na fila do Museu da República, durante a noite de lançamento de um excelente livro de biografias escrito pelo advogado Manoel Vidal, que acabara de se consagrar como o melhor chefe de Polícia do Rio de Janeiro, encontramos o jornalista Tom Thimóteo, da TV Globo, principal assessor de Lula da Silva, que então tentava sua quarta candidatura presidencial. 

E aí, amigo, quem ganha essa eleição?“, perguntou Tom, nosso amigo desde a infância no Edifício Zacatecas, em Laranjeiras.

Ao que parece, o Ciro Gomes ganha. É brilhante, tem um excelente discurso, opera na centro-esquerda e exibe ao lado dele no palanque aquela mulher linda e careca, que todos nós amamos. É hoje o único candidato em viés de alta, vai ser difícil vencê-lo“, respondi, referindo-me à atriz Patricia Pillar, que fazia quimioterapia contra câncer de mama.

E o Lula?“, Tom insistiu. E quem respondeu foi a jornalista Jussara Martins, que me acompanhava na fila dos autógrafos: “Lula vai seguir perdendo, Tom, porque ele transmite ódio e sentimento de vingança. Os brasileiros não gostam disso. Ele tinha de defender as mudanças que a gente espera, mas seu discurso é raivoso, uma chatice...”.  

DEU TUDO ERRADO – Nossos prognósticos estavam errados, porque logo em seguida o sucesso subia à cabeça de Ciro Gomes, que deu aquela célebre declaração de que o papel de Patrícia Pillar na campanha era dormir com ele. Em consequência, imediatamente perdeu o apoio do eleitorado feminino e ficou emparedado.

Ao mesmo tempo, surgia na TV o “Lulinha Paz e Amor”, que foi para o segundo turno contra José Serra (PSDB), enquanto Ciro Gomes amargava no quarto lugar, através do estreante Anthony Garotinho (PSB), vejam como a política é uma coisa maluca e Lula da Silva se tornou o primeiro político do mundo a vencer uma eleição presidencial na quarta tentativa, por mudar totalmente seu discurso político e roubar votos da centro-direita.

DE NOVO, CIRO – Dezesseis anos depois, Ciro Gomes voltou a concorrer e tinha uma chance absurda de ser eleito, porque desta vez Lula estava fora do páreo e mostrava ter perdido musculatura eleitoral, porque em todas as pesquisas espontâneas (“Em quem você vai votar para presidente?”),  de todos os institutos, desde o início do ano jamais passara de 20% dos votos. 

Odiado por mulheres, negros e público gay, Bolsonaro era recordista em rejeição e Ciro poderia ter vencido facilmente. Bastava adotar as óbvias teses de combate à criminalidade, aumento das penas, permissão para vendas de armas, combate à corrupção e luta contra o petismo, e assim teria deixado Bolsonaro à deriva.  

Mal assessorado, porque a vaidade não permite que seja assessorado por ninguém, Ciro Gomes fez tudo errado e jogou fora uma campanha que certamente poderia vencer.

ERROS DEMAIS – Ao invés de combater a corrupção do PT, Ciro ficou namorando o eleitorado de Lula e atacou o Ministério Público (“Vou colocar dentro de uma caixinha”). Disse também que somente ele poderia soltar Lula, depois ofendeu Marina Silva, ao afirmar que ela não tinha testosterona para vencer, e assim perdeu novamente os votos de muitas mulheres.

Em 2002, Ciro disse ao vivo que um ouvinte era “burro”. Agora, chamou um vereador negro de “capitãozinho do mato”, depois xingou um repórter de FDP em público, duas  grandes mancadas. Além disso, tentou obter apoio dos corruptos do “Centrão” e sempre ficou em cima do muro sobre Lula e o PT,  e acabou perdendo milhões de votos com essas bobeadas.

Mesmo assim, Ciro Gomes sempre foi imbatível no segundo turno que ele jamais disputará, porque no meio do caminho deixou ser ultrapassado por dois candidatos absolutamente medíocres, comprovando-se que em eleição presidencial nem sempre ganha o melhor, porque quem recebe mais votos é sempre o mais hábil. 

O eclipse da ética na atualidade e a ameaça do Armagedon ecológico

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A ponte sobre o Rio Tietê revela nossa dura realidade

Leonardo Boff

Entre os dias 10-13 de julho realizou-se em Belo Horizonte um congresso internacional organizado pela Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER) em torno dos temas: Religião, Ética e Política. As exposições foram de grande atualidade e de qualidade superior. Refiro-me apenas à discussão acerca do Eclipse da Ética que me coube introduzir. A meu ver dois fatores atingiram o coração da ética: o processo de globalização e a mercantilização da sociedade.

A globalização mostrou os vários tipos de ética, consoante as diferenças culturais. Relativizou-se a ética ocidental, uma entre tantas. As grandes culturas do Oriente e as dos povos originários revelaram que podemos ser éticos de forma muito diferente.

CULTURA MAIA – Por exemplo, a cultura maia coloca tudo centrado no coração, já que todas as coisas nasceram do amor de dois grandes corações, do Céu e da Terra. O ideal ético é criar em todas as pessoas corações sensíveis, justos, transparentes e verdadeiros. Ou a ética do “bien vivir y convivir” dos andinos assentada no equilíbrio com todas as coisas, entre os humanos, com a natureza e com o universo.

Tal pluralidade de caminhos éticos teve como consequência, uma relativização generalizada. Sabemos que a lei e a ordem, valores da prática ética fundamental, são os pré-requisitos para qualquer civilização em qualquer parte do mundo. O que observamos é que a humanidade está cedendo diante da barbárie rumo a uma verdadeira idade das trevas mundial, tal é o descalabro ético que estamos vendo.

Pouco antes de morrer em 2017, advertia o pensador Sigmund Bauman: “Ou a humanidade se dá as mãos para juntos nos salvarmos ou então engrossaremos o cortejo daqueles que caminham rumo ao abismo”. Qual é a ética que nos poderá orientar como humanidade vivendo na Casa Comum?

TRANSFORMAÇÃO – O segundo grande empecilho à ética é aquilo que Karl Polaniy chamava já em 1944 de “A Grande Transformação”. É o fenômeno da passagem de uma economia de mercado para uma sociedade puramente de mercado. Tudo se transforma em mercadoria, coisa já prevista por Karl Marx em seu texto “A miséria da Filosofia de 1848”, quando se referia ao tempo em que as coisas mais sagradas como a verdade e a consciência seriam levadas ao mercado; seria “tempo da grande corrupção e da venalidade universal”. Pois vivemos este tempo.

A economia, especialmente a especulativa, dita os rumos da política e da sociedade como um todo. A competição é sua marca registrada e a solidariedade praticamente desapareceu.

O que é o ideal ético deste tipo de sociedade? É a capacidade de acumulação ilimitada e de consumo sem peias, gerando uma grande divisão entre um pequeníssimo grupo que controla grande parte da economia e as maiorias excluídas e mergulhadas na fome e na miséria.   Aqui se revelam traços de barbárie e crueldade como poucas vezes na história.

ÉTICA UNIVERSAL – PrecIsamos refundar uma ética que se enraíze naquilo que é específico nosso, enquanto humanos e que, por isso, seja universal e possa ser assumida por todos.

Estimo que que em primeiríssimo lugar é a ética do cuidado. Segundo a fabula 220 do escravo Higino e bem interpretada por Martin Heidegger em “Ser e Tempo”, constitui o substrato ontológico do ser humano, aquele conjunto de fatores sem os quais jamais surgiria o ser humano e outros seres vivos.

Pelo fato de o cuidado ser da essência do humano, todos podem vivê-lo e dar-lhe formas concretas, consoantes suas culturas. O cuidado pressupõe uma relação amigável e amorosa para com a realidade, da mão estendida para a solidariedade e não do punho cerrado para a dominação. No centro do cuidado está a vida. A civilização deverá ser biocentrada.

SOLIDARIEDADE – Outro dado de nossa essência humana é solidariedade e a ética que daí se deriva. Sabemos hoje pelo bio-antropologia que foi a solidariedade de nossos ancestrais antropóides que permitiu dar o salto da animalidade para a humanidade. Buscavam os alimentos e os consumiam solidariamente. Todos vivemos porque existiu e existe um mínimo de solidariedade, começando pela família. O que foi fundador ontem, continua sendo-o ainda hoje.

Outro caminho ético, ligado à nossa estrita humanidade é a ética da responsabilidade universal, Ou assumimos juntos responsavelmente o destino de nossa Casa Comum ou então percorreremos um caminho sem retorno. Somos responsáveis pela sustentabilidade de Gaia e de seus ecossistemas para que possamos continuar a viver junto com toda a comunidade de vida.

O filosofo Hans Jonas, que, por primeiro, elaborou “O Princípio Responsabilidade”, agregou a ele a importância do medo coletivo. Quando este surge e os humanos começam a dar-se conta de que podem conhecer um fim trágico e até de desaparecer como espécie, irrompe um medo ancestral que os leva a uma ética de sobrevivência. O pressuposto inconsciente é que o valor da vida está acima de qualquer outro valor cultural, religioso ou econômico.

ÉTICA DA JUSTIÇA – Por fim importa resgatar a ética da justiça para todos. A justiça é o direito mínimo que tributamos ao outro, de que possa continuar a existir e dando-lhe o que lhe cabe como pessoa. Especialmente as instituições devem ser Justas e equitativas para evitar os privilégios e as exclusões sociais que tantas vítimas produzem, particularmente nosso país, um dos mais desiguais, vale dizer, mais injustos do mundo.

Daí se explica o ódio e as discriminações que dilaceram a sociedade, vindos não do povo mas daquelas elites endinheiradas que sempre viveram do privilégio. Atualmente vivemos sob um regime de exceção, no qual tanto a Constituição e as leis são pisoteadas ou mediante o Lawfare (a interpretação distorcida da lei que o juiz pratica para prejudicar o acusado)

A NATUREZA – A justiça não vale apenas entre os humanos mas também para com a natureza e a Terra que são portadores de direitos e por isso devem ser incluídos em nosso conceito de democracia sócio-ecológica.

Estes são alguns parâmetros mínimos para uma ética, válida para cada povo e para a humanidade, reunida na Casa Comum. Devemos incorporar uma ética da sobriedade compartida para lograr o que dizia Xi Jinping, chefe supremo da China “uma sociedade moderadamente abastecida”. Isto significa um ideal mínimo e alcançável. Caso contrário poderemos conhecer um Armagedon social e ecológico.

A perpetuação da crise brasileira, analisada à luz da Teoria do Caos

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Charge do Laerte (www.laerte.com)

Leonardo Boff

Já há muitos anos, cientistas vindos das ciências da vida e do universo começaram a trabalhar com a categoria do caos. Inicialmente também Einstein participava-se da visão de que o universo era estático e regulado por leis determinísticas. Mas sempre escapavam alguns elementos que não se enquadravam neste esquema. Para harmonizar a teoria, Einstein criou o “princípio cosmológico” do qual mais tarde se arrependeria muito, porque não explicava nada, mas mantinha inalterada a teoria standard do universo linear. Com o advento da nova cosmologia. Einstein mudou completamente de ideia e começou a entender o mundo em processo ininterrupto de mutação e autocriação.

Tudo começou com a observação de fenômenos aleatórios, como a formação das nuvens e particularmente o que se veio chamar de efeito borboleta (pequenas modificações iniciais, como farfalhar das asas de uma borboleta no Brasil, podem provocar uma tempestade em Nova York) e a constatação da crescente complexidade que está na raiz da emergência de formas de vida cada vez mais altas (cf. J.Gleick “Caos: criação de uma nova ciência”, 1989).

ORDEM E DESORDEM – O sentido é este: por detrás do caos presente se escondem dimensões de ordem. E vice-versa, por detrás da ordem se escondem dimensões de caos. Ilya Progrine (1917-2003), prêmio Nobel de Química em 1977, estudou particularmente as condições que permitem a emergência da vida. Segundo este grande cientista, sempre que existir um sistema aberto, sempre que houver uma situação de caos (longe do equilíbrio) e vigorar uma não-lineariedade, é a conectividade entre as partes que gera uma nova ordem vital (cf. “Order out of Chaos”, 1984).

Esse processo conhece bifurcações e flutuações. Por isso a ordem nunca é dada a priori. Ela depende de vários fatores que a levam a uma direção ou à outra.

CAOS À BRASILEIRA – Fizemos toda esta reflexão sumaríssima (exigiria muitas páginas) para nos ajudar a entender melhor a crise brasileira. Inegavelmente vivemos numa situação de completo caos. Ninguém pode dizer para onde vamos. Há várias bifurcações. Caberá aos atores sociais determinar uma bifurcação que não represente a continuidade do passado que criou o caos. Sabemos que há oculto dentro dele uma ordem mais alta e melhor. Quem vai desentranhá-la e fazer superar o caos?

Aqui se trata, no meu modo de ler a crise, de liquidar o perverso legado da Casa Grande traduzida pelo rentismo e pelos poucos miliardários que controlam grande parte de nossas finanças. Esses são o maior obstáculo para superação da crise. Antes, eles ganham com ela. Não oferecem nenhum subsídio para superá-la. E possuem aliados fortes a começar pelo atual ocupante da Presidência e parte do Judiciário, pouco sensível à cruel injustiça social e à superação histórica dela.

FRENTE AMPLA – Precisamos constituir uma frente ampla de forças progressistas e inimigas da neocolonização do país para desentranhar a nova ordem, abscôndita no caos atual mas que quer nascer. Temos que fazer esse parto mesmo que doloroso. Caso contrário, continuaremos reféns e vítimas daqueles que sempre pensaram corporativamente só em si, de costas e, como agora, contra o povo.

O caos nunca é só caótico. É gerador de nova ordem. O universo se originou de um tremendo caos inicial (Big Bang). A evolução se fez e se faz para colocar ordem neste caos. Devemos imitar o universo e construir uma nova ordem que seja includente de todos, a partir dos últimos.

 

Carta do Papa ao frei Gutiérrez Merino, criador da Teologia da Libertação

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O Papa é admirador da obra do frei Gutierrez Merino

Leonardo Boff

Gustavo Gutiérrez Merino, Frade Dominicano, nasceu em Lima, no Peru, no dia 8 de junho de 1928. É considerado o “Pai da Teologia da Libertação”. Hoje, ele reside no Convento dos Dominicanos de Lima. Dedica-se ao trabalho pastoral, à pregação de Retiros, à administração de Cursos de Teologia na Universidade de Notre Dame (Indiana, EUA) e no “Studium” Dominicano de Lille (França), e de Conferências em Cursos e Encontros.

Com todo carinho e apreço – como um irmão que de coração aberto escreve a outro irmão – o Papa Francisco enviou uma Carta ao teólogo Gustavo Gutiérrez Merino, parabenizando-o pelo seu aniversário de 90 anos e agradecendo o seu serviço teológico e o seu amor aos pobres. Por fim, encoraja-o a seguir adiante. Associo-me aos votos do Papa Francisco.

DIZ O PAPA – Vejam que carta bonita e singela: “Estimado irmão: Por ocasião do seu 90º aniversário, escrevo para parabenizá-lo e assegurá-lo de minha oração neste momento significativo de sua vida.

Uno-me à sua ação de graças a Deus, e agradeço-lhe pela sua contribuição à Igreja e à humanidade através do seu serviço teológico e o seu amor preferencial pelos pobres e descartados da sociedade. Obrigado por todos os seus esforços e pela sua maneira de interpretar a consciência de cada um, para que ninguém seja indiferente ao drama da pobreza e da exclusão.

Com esses sentimentos encorajo você a continuar a sua oração e o seu serviço aos outros, dando testemunho da alegria do Evangelho. E por favor, peço-lhe que reze por mim. Que Jesus te abençoe e que a Virgem Santa te cuide!. Fraternalmente, Francisco”.

SINCERIDADE – Por ser uma pessoa despojada de qualquer formalismo, o que nos toca mais profundamente nas palavras do Papa é sua simplicidade e sua sinceridade.

Francisco já tinha recebido Gustavo Gutiérrez no Vaticano em 14 de setembro de 2013 e também em 22 de novembro de 2014, por ocasião da audiência aos missionários italianos que participaram do 4º Encontro Missionário Nacional em Roma, no qual Gutierrez foi um dos conferencistas.

A manifestação de um carinho e de uma gratidão toda especial do Papa Francisco ao teólogo Gustavo Gutiérrez foi celebrada como um gesto de reconhecimento do Santo Padre em relação à Teologia da Libertação por uma série de teólogos, intelectuais e lideranças ligadas a esta tradição que nasceu na América Latina.

LIBERTAÇÃO – Frei Betto declarou: “Ao felicitar nosso confrade e meu dileto amigo Gustavo Gutiérrez por seus 90 anos, o Papa Francisco reconhece o valor da Teologia da Libertação e reforça na Igreja a Opção pelos Pobres”.

Na verdade, toda Teologia é da Libertação. Se não for da Libertação, não é verdadeira Teologia. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou com a unção, para anunciar a Boa Notícia aos pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos, e aos cegos a recuperação da vista; para libertar os oprimidos e proclamar o ano de graça do Senhor” (Lc 4,18-19). “Eu vim para que todos e todas tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

REDUNDÂNCIA – A expressão “da Libertação” – de alguma forma – é uma redundância, mas serve de lembrete. Convida-nos a “fazer teologia” sempre a partir da realidade (da práxis: prática e teoria) e à luz da Palavra, para que a reflexão teológica nos ajude a entender – melhor e mais profundamente – o sentido da vida e nos comprometa – cada vez mais conscientemente – na luta pela libertação de tudo aquilo que impede a construção de outro mundo possível, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus. A Teologia da Libertação é – podemos dizer – o “jeito bíblico” e, de maneira especial, “evangélico” de fazer toda a Teologia.

Uma das críticas que se faz à Teologia da Libertação é a de que – ao menos até agora – ela tratou, quase que exclusivamente, da realidade social e política. Ora, como o ser humano é histórico (um “vir-a-ser”, um ser em construção), seus conhecimentos – meramente racionais (científicos e filosóficos) ou racionais à luz da Fé (teológicos) – são também históricos, situados (no espaço) e datados (no tempo).

FAZER TEOLOGIA – Aconteceu (e poderá sempre acontecer) que – em determinadas situações, para dar sua contribuição na resposta aos prementes desafios apresentados – a Teologia da Libertação aprofundou mais alguns aspectos da realidade (como o social e o político) e deixou na sombra, outros aspectos (como o cultural). Com isso, a Teologia da Libertação deu a impressão que tratava somente de temas sociais e políticos.

Isso é humano e compreensivo quando “se faz teologia” a partir de situações concretas. Aspectos da realidade, que ficaram aparentemente esquecidos, poderão ser aprofundados em outros momentos. Só não se deve apresentar uma parte da verdade como se fosse toda verdade.

Por ser, pois, a história do ser humano no mundo um processo dialético (contraditório) entre libertação e opressão, entre vida e morte (não-vida), infelizmente – além da Teologia da Libertação (a verdadeira Teologia) – temos também a Teologia da Opressão (a falsa Teologia), que procura justificar e legitimar o mal, o pecado – social e pessoal – que existe no mundo, não só racionalmente, mas também em nome de Deus. É a hipocrisia religiosa, que – lamentavelmente – continua presente em nossas Igrejas, sobretudo hoje.

AO LADO DO POVO – Como seguidores e seguidoras de Jesus – que vivem em Comunidades (Igrejas) – devemos estar sempre inseridos e inseridas (encarnados e incarnadas) na vida do povo, entranhadamente solidários e solidárias com todos e todas que sofrem e organicamente unidos e unidas a todos e todas que lutam pela Vida Humana e por todas as formas de Vida.

“Como Cristo, por sua Encarnação ligou-se às condições sociais e culturais dos seres humanos com quem conviveu; assim também deve (reparem “deve” e não “pode”) a Igreja inserir-se nas sociedades, para que a todas possa oferecer o mistério da salvação e a vida trazida por Deus” (Concílio Vaticano II. A atividade missionária da Igreja – AG, 10).

MILITÂNCIA – Os cristãos e cristãs têm, portanto, o dever de participar (ser militantes) dos Movimentos Populares, Sindicatos de Trabalhadores e Trabalhadoras, Partidos Políticos Populares, Foruns de Defesa e Promoção dos Direitos Humanos, Conselhos de Direitos e outras Organizações Populares, comprometidas na construção de “outro mundo possível”, que é a sociedade do Bem Viver, que é o Reino de Deus na história do ser humano e do mundo.

Parabéns, meu Irmão Dominicano, Frei Gustavo Gutiérrez. Continue a “fazer Teologia da Libertação”, oferecendo-nos “novas luzes” para entender o mundo no qual vivemos e cumprir nossa missão de seguidores e seguidoras de Jesus de Nazaré. Unidos na oração.

Só uma revolução espiritual pode aliviar o peso kármico que o Brasil suporta

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Ikeda e Toynbee concordaram sobre a força do karma

Leonardo Boff

A amplitude da crise brasileira é de tal gravidade que nos faltam categorias para elucidá-la. Tentando ir além das clássicas abordagens da sociologia crítica ou da história, tenho-me valido da capacidade elucidativa das categorias psicanalíticas da “sombra” e da “luz” generalizadas como constantes antropológicas, pessoais e coletivas. Ensaiei uma compreensão possível que nos vêm da teoria do caos, capítulo importante da nova cosmologia, pois deste caos, em situação de altíssima complexidade e jogo de relações, irrompeu a vida que conhecemos, inclusive a nossa. Esta mostrou-se capaz de identificar aquela Energia Poderosa e Amorosa que tudo sustenta, o Princípio Gerador de todos os Seres e abrir-se a Ele em veneração e respeito.

Pergunto-me que outra categoria estaria no repositório da sabedoria humana que nos poderia trazer alguma luz nas trevas nas quais estamos todos mergulhados. Foi então que me lembrei de um diálogo instigante entre o grande historiador inglês Arnold Toynbee e Daisaku Ikeda, eminente filósofo japonês (cf. “Elige la vida”, Emecé. B.Aires 2005) que durou vários dias em Londres.

REALIDADE DO KARMA – Ambos creem na realidade do karma, seja pessoal, seja coletivo. Prescindindo das várias interpretações dadas a ele, me parecia ter encontrado aqui uma categoria da mais alta ancestralidade, manejada pelo budismo, hinduismo, jainismo e também pelo espiritismo para explicar fenômenos pessoais e coletivos.

O karma é um termo sânscrito originalmente significando força e movimento, concentrado na palavra “ação” que provocava sua correspondente “re-ação”. Este aspecto coletivo pareceu-me importante, por que, não conheço (posso estar equivocado) no ocidente nenhuma categoria conceptual que dê conta de um sentido de devir histórico de toda uma comunidade e de suas instituições nas suas dimensões positivas e negativas. Talvez, devido ao arraigado individualismo, típico do Ocidente, não tenhamos tido as condições de projetarmos um conceito suficientemente abrangente.

MARCAS DA VIDA – Cada pessoa é marcada pelas ações que praticou em vida. Essa ação não se restringe à pessoa, mas conota todo o ambiente. Trata-se de uma espécie de conta-corrente ética cujo saldo está em constante mutação consoante as ações boas ou más que são feitas, vale dizer, os “débitos e os créditos”. Mesmo depois da morte, a pessoa, na crença budista, carrega esta conta por mais renascimentos possa ter, até zerar a conta negativa.

Toynbee dá-lhe outra versão que me parece esclarecedora e nos ajuda entender um pouco nossa história. A história é feita de redes relacionais dentro das quais está inserida cada pessoa, ligada com as que a precederam e com as presentes. Há um funcionamento kármico na história de um povo e de suas instituições consoante os níveis de bondade e justiça ou de maldade e injustiça que produziram ao largo do tempo. Este seria uma espécie de campo mórfico que permaneceria impregnando tudo.

RENASCIMENTOS – Não se requer a hipótese dos muitos renascimentos porque a rede de vínculos garante a continuidade do destino de um povo (p. 384). As realidades kármicas impregnam as instituições, as paisagens, configuram as pessoas e marcam o estilo singular de um povo. Esta força kármica atua na história, marcando os fatos benéficos ou maléficos. C.G.Jung, em sua psicologia arquetípica, notara, de alguma forma, tal fato.

Apliquemos esta lei kármica à nossa situação. Não sera difícil reconhecer que somos portadores de um pesadíssimo karma, em grande escala, derivado do genocídio indígena, da super-exploração da força do trabalho escravo, das injustiças perpretadas contra grande parte da população, negra e mestiça, jogada na periferia, com famílias destruídas e corroídas pela fome e pelas doenças.

REVOLUÇÃO ESPIRITUAL – A via-sacra de sofrimento desses nossos irmãos e irmãs tem mais estações do que aquela do Filho do Homem quando viveu e padeceu entre nós. Excusado é citar outras maldades.

Tanto Toynbee quanto Ikeda concordam nisso: ”A sociedade moderna (nós incluídos) só pode ser curada de sua carga kármica, através de uma revolução espiritual no coração e na mente (p.159), na linha da justiça compensatória e de políticas sanadoras com instituições justas. Sem esta justiça mínima, a carga kármica não se desfará. Mas ela sozinha não é suficiente. Faz-se mister o amor, a solidariedade a compaixão e uma profunda humanidade para com as vítimas. O amor será o motor mais eficaz porque ele, no fundo “é a última realidade” (p.387).

Uma sociedade incapaz de efetivamente amar e de ser menos malvada, jamais desconstruirá uma história tão marcada pelo karma. Eis o desafio que a atual crise nos suscita.

DE CRISE EM CRISE – Não apregoaram outra coisa os mestres da humanidade, como Jesus, São Francisco, Dalai Lama, Gandhi, Luther King Jr e o Papa Francisco? Só o karma do bem redime a realidade da força kármica do mal.

E se o Brasil não fizer essa reversão kármica permanecerá de crise em crise, destruindo seu próprio futuro.

O centro do mundo não é o ser humano, mas a vida em sua diversidade

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Reprodução do Arquivo Google

Leonardo Boff

Na compreensão dos grandes cosmólogos que estudam o processo da cosmogênese e da biogênese, a culminância desse processo não se realiza no ser humano. A grande emergência é a vida em sua imensa diversidade e àquilo que lhe pertence essencialmente que é o cuidado. Sem o cuidado necessário nenhuma forma de vida subsistirá (cf. Boff, L., O cuidado necessário, Vozes, Petrópolis 2012).

É imperioso enfatizar: a culminância do processo cosmogênico não se dá no antropocentrismo, como se o ser humano fosse o centro de tudo e os demais seres só ganhariam significado quando ordenados a ele e ao seu uso e desfrute. O maior evento da evolução é a irrupção da vida em todas as suas formas, também na forma humana.

CRISE ECOLÓOGICA – O conhecido cosmólogo da Califórnia Brian Swimme afirma em seu livro The Universe Story:Somos incapazes de nos libertar da convicção de que, como humanos, nós somos a glória e a coroa da comunidade terrestre e perceber que somos, isso sim, o componente mais destrutivo e perigoso dessa comunidade”. Esta constatação aponta para a atual crise ecológica generalizada afetando o inteiro planeta, a Terra.

Os biólogos descrevem as condições dentro das quais a vida surgiu, a partir de um alto grau de complexidade e quando esta complexidade se encontra fora de seu equilíbrio. Impera o caos. Mas o caos não é apenas caótico. É também generativo. Gera novas ordens e várias outras complexidades.

Os cientistas não sabem definir o que seja a vida. Ela é a emergência mais surpreendente e misteriosa de todo o processo cosmogênico. A vida humana é um subcapítulo do capítulo da vida. Vale enfatizar: a centralidade cabe à vida. A ela se ordena a infra-estrutura físico-química e ecológica da evolução que permite a imensa biodiversidade, dentre ela, a vida humana, consciente, falante e cuidante.

SEU NOME É DEUS – A vida é entendida aqui como auto-organização da matéria em altíssimo grau de interação com o universo e com o tudo que se encontra à sua volta. Cosmólogos e biólogos sustentam: a vida comparece como a suprema expressão da “Fonte Originária de todo o ser” que para nós é outro nome, o mais adequado, para Deus. Ela não vem de fora, mas emerge do bojo do processo cosmogênico ao atingir um altíssimo grau de complexidade.

O prêmo Nobel de biologia, Christian de Duve, chega a afirmar que em qualquer lugar do universo quando ocorre tal nível de complexidade, a vida emerge como imperativo cósmico (Poiera vital,Rio de Janeiro 1997). Nesse sentido o universo está repleto de vida.

A vida mostra uma unidade sagrada na diversidade de suas manifestações, pois todos os seres vivos carregam o mesmo código genético de base que são os 20 aminoácidos e as quatro bases fosfatadas, o que nos torna a todos parentes e irmãos e irmãs uns dos outros. 

CELEBRAR A VIDA – Cuidar da vida, fazer expandir a vida, entrar em comunhão e sinergia com toda a cadeia de vida e celebrar a vida: eis o sentido do viver dos seres humanos sobre a Terra, também entendida como Gaia, super-organismo vivo e nós humanos como a porção de Gaia que sente, pensa, ama, fala e venera.

A centralidade da vida implica concretamente assegurar os meios de vida como: alimentação, saúde, trabalho, moradia, segurança, educação e lazer. Se estandartisássemos a toda a humanidade os avanços da tecnociência já alcançados, teríamos os meios para todos gozarem dos serviços com qualidade que hoje somente setores privilegiados e opulentos têm acesso.

DEMOCRATIZAR O SABER – Até hoje o saber foi entendido com poder a serviço da acumulação de indivíduos ou de grupos que criam desigualdades, portanto, a serviço do sistema imperante, injusto e desumano. Postulamos um poder a serviço da vida e das mudanças necessárias e exigidas pela vida. Por que não fazer uma moratória de investigação e de invenção em favor da democratização do saber e das invenções já acumuladas pela civilização para beneficiar os milhões e milhões destituídos da humanidade?

Enquanto isso não ocorrer, viveremos tempos de grande barbárie e de sacrificação do sistema-vida, seja na natureza seja na sociedade mundial.

Este constitui o grande desafio para o século XXI. Ou podemos nos autodestruir, levando junto grande parte da biosfera, pois construímos já os meios para isso, ou podemos também começar, finalmente, a criar uma sociedade verdadeiramente justa e fraternal junto com toda a comunidade de vida.

Princípios teológicos para um equilíbrio dos gêneros masculino e feminino

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A despeito das contradições internas das fontes judaico-cristãs acerca do homem e da mulher, alguns princípios positivos reforçam a luta histórica de ambos rumo a um equilíbrio dos gêneros. A igualdade originária entre homem e mulher é um princípio que está na primeira página da Bíblia, no livro do Gênesis: “Deus criou o ser humano a sua imagem, macho e fêmea Ele os criou”(1,27). No segundo Testamento, centrado na figura do Cristo, se diz: “Não há homem nem mulher, todos são um em Cristo Jesus”(Gal 3,28).

Dentro da igualdade de origem, se instaura a diferença, entendida como abertura um ao outro, vale dizer, como reciprocidade. O relato mais arcaico do Gênesis (2,18-23), de tendência fortemente masculinizante, acentua essa reciprocidade. Eva, embora tirada da costela (lado) de Adão, é apresentada não como a mulher com quem ele vai ter filhos, nem como serva da casa, mas com seu vis-à-vis e interlocutora. O próprio Paulo podia expressar assim a reciprocidade: “o marido cumpra o dever conjugal para com a mulher e, igualmente, a mulher em relação para com o marido”(1Cor 7,4).

IMAGEM E SEMELHANÇA – Se homem e mulher são imagem e semelhança de Deus, significa que Deus é encontrado neles. Em termos rigorosos da teologia, quando dizemos Deus-Pai, não dizemos uma coisa diferente do que quando dizemos Deus-Mãe. Por pai e mãe, pretendemos, teologicamente, expressar que a vida e a inteira criação têm sua origem em Deus e que se encontra sempre sob o cuidado e providência amorosa de Deus. Isso pode ser perfeitamente expresso pela categoria pai ou mãe. Portanto, temos sempre um caminho aberto para Deus pela via do masculino e pela via do feminino. Diminuindo o valor da mulher, temos uma imagem distorcida de Deus.

A imagem (ser humano) remete ao modelo (Deus). Se Deus mesmo tem dimensões masculinas e femininas, então é sob essa forma que Ele se revelou e autocomunicou na história. Emerge como uma energia criadora primordial, como aquele pai que acompanha e protege ou como a mãe que cuida e consola (Is 66,13). O feminino e masculino são caminhos de Deus para conosco.

SANTÍSSIMA TRINDADE – Há ainda uma maneira de nomear Deus no cristianismo que é na forma de Trindade de divinas Pessoas: Pai, Filho e Espírito Santo. Deus emerge como um jogo de energias originárias e eternas que somente existem na medida em que coexistem. São uma para a outra, com a outra, pela outra e jamais sem a outra. Não é mais o monoteísmo de judeus e muçulmanos pré-trinitário. É o monoteísmo trinitário cristão.

Num nível existencial, quando dizemos “Trindade”, no fundo queremos dizer: “O Deus que está acima de nós chamamos de Pai, o Deus que está ao nosso lado chamamos de Filho e o Deus que está dentro de nós chamamos de Espírito Santo”. Não são três deuses (porque cada Pessoa é única e por isso não pode ser somada), mas é um e o mesmo Deus que, no nível existencial, assim se revela e assim é experienciado.

HOMEM E MULHER – Pelo fato de em Deus haver diversidade e unidade, então sua imagem no mundo, o homem e a mulher, serão também diversos e unos, sendo impossível pensar o feminino sem o masculino e o masculino sem o feminino.

Por mais que estejam, inarredavelmente, imbricados um no outro e se busquem, insaciavelmente, o homem e a mulher não encontram a resposta de seu vazio abissal nessa relação recíproca. Neles há um infinito que somente o infinito de Deus os pode preencher. Dar-se-á o que todos os mitos narram e todos os místicos testemunham: o esponsal definitivo, o festim eterno e a fusão do amado e da amada no Amado e na Amada transformados, na expressão de São João da Cruz.

O fim da Igreja ocidental e o começo da verdadeira Igreja universal

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Passaram-se já cinco anos do papado de Francisco, bispo de Roma e papa da Igreja universal. Muitos fizeram balanços minuciosos e brilhantes sobre essa nova primavera que irrompeu na Igreja. Enfatizo apenas alguns pontos que interessam a nossa realidade. O primeiro deles é a revolução feita na figura do papado, vivida em pessoa por ele mesmo. Não é mais o papa imperial com os símbolos herdados dos imperadores romanos. Ele se apresenta como simples pessoa do povo.

Sua primeira palavra de saudação foi dizer aos fiéis “buona sera” (“boa noite”). Em seguida, anunciou-se como bispo de Roma, chamado a dirigir a Igreja que está no mundo inteiro. Antes mesmo de dar a bênção oficial, pediu que o povo o abençoasse. E foi morar não num palácio, mas numa casa de hóspedes. E come junto com eles.

SENTIDO DE VIDA – O segundo ponto é anunciar o Evangelho como sentido de viver e menos como doutrina dos catecismos. Não se trata de levar Cristo ao mundo secularizado, mas descobrir sua presença nele.

O terceiro ponto é colocar no centro de sua atividade o encontro com o Cristo vivo, o amor apaixonado pelos pobres e o cuidado da Mãe Terra. O centro é Cristo, e não o papa. O encontro vivo com Cristo tem o primado sobre a doutrina.

Em vez da lei, anuncia a misericórdia e a ternura, como o disse, falando aos bispos brasileiros, em sua viagem a nosso país. O amor aos pobres foi expresso em sua primeira intervenção oficial: “Como gostaria que a Igreja fosse a Igreja dos pobres”. Foi ao encontro dos refugiados que chegavam à ilha de Lampedusa, no sul da Itália. Aí disse palavras duras contra certo tipo de civilização moderna que perdeu o sentido da solidariedade.

ALARME ECOLÓGICO – Suscitou o alarme ecológico com sua encíclica “Laudato Si”, sobre o cuidado da Casa Comum, dirigida a toda a humanidade. Mostra clara consciência dos riscos que o sistema vida e o sistema Terra correm. Por isso, expande o discurso ecológico para além do ambientalismo. Diz enfaticamente que devemos fazer uma revolução ecológica global.

A ecologia é integral, e não apenas verde, pois envolve a sociedade, a política, a cultura, a educação, a vida cotidiana e a espiritualidade. Une o grito dos pobres com o grito da Terra. Convida-nos a sentir como nossa a dor da natureza, pois estamos todos interligados.

O quarto ponto foi apresentar a Igreja não como um castelo fechado e cercado de inimigos, mas um hospital de campanha que a todos acolhe sem reparar em sua extração de classe, de cor ou de religião.

SERVIR DE ALENTO – É uma Igreja em permanente saída para os outros, especialmente para as periferias existenciais que grassam no mundo inteiro. Ela deve servir de alento, infundir esperança e mostrar um Cristo que veio para nos ensinar a viver como irmãos e irmãs, no amor, na igualdade, na justiça, abertos ao Pai.

Por fim, mostra clara consciência de que o Evangelho se opõe às potências deste mundo, que deixam na miséria grande parte da humanidade. Vivemos sob um sistema que coloca o dinheiro no centro e que é assassino dos pobres e dos bens e serviço da natureza. Dialoga com todas as tradições religiosas e espirituais. No lava-pés da Quinta-Feira Santa, estava uma menina muçulmana.

ECUMENISMO – O papa Francisco Quer as Igrejas, com suas diferenças, unidas no serviço ao mundo, especialmente aos mais desamparados. É o verdadeiro ecumenismo de missão.

Com esse papa que “vem do fim do mundo” se encerra uma Igreja ocidental e começa uma Igreja universal, adequada à fase planetária da humanidade, chamada a encarnar-se nas várias culturas e construir aí um novo rosto a partir da riqueza inesgotável do Evangelho.

A esperança que não pode morrer é a da transformação da sociedade

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Charge do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Apesar de toda a alegria do Carnaval passado, há um manto de tristeza e desamparo que se pode ler nos rostos da maioria das pessoas que encontramos nas ruas das grandes cidades, como Rio e São Paulo. Politicamente, o golpe parlamentar-jurídico-midiático (hoje, sabemos que foi apoiado pelos órgãos de segurança dos Estados Unidos) nos fechou o horizonte. Ninguém pode nos dizer para onde vamos. O que aponta de forma inegável é o aumento da violência, com um número de vítimas que se igualam e até superam regiões em guerra. E ainda sofremos uma intervenção militar no Rio de Janeiro.

Se bem observarmos, vivemos uma guerra civil real. As classes que já estavam abandonadas agora o são mais ainda pelos cortes nos programas sociais que o atual governo impôs a milhares de famílias.

MAPA DA FOME – Tínhamos saído do mapa da fome. Regressamos a ele. E não se diga que foram as políticas dos governos do PT. Essas nos tiraram do mapa. A aplicação rigorosa do neoliberalismo pela nova classe dirigente está produzindo fome e miséria. O crescimento da violência nas grandes cidades é proporcional ao abandono a que foram submetidas.

As discussões dos vários organismos responsáveis pela segurança nunca vão à raiz da questão. O problema real reside na desigualdade social, vale dizer, na injustiça social, histórica e estrutural sobre a qual está construída nossa sociedade. A desigualdade social cresce quanto mais se concentra a renda e quanto mais avança o agronegócio sobre terras indígenas e quanto mais se fazem cortes na educação, na saúde e na segurança.

VIOLÊNCIA – Ou se faz justiça social, o que implica reformas – agrária, tributária, política e do sistema de segurança –, ou nunca superaremos a violência. Ela tenderá a crescer em todo o país.

Se um dia as grandes periferias abandonadas se rebelarem e assaltarem os centros urbanos, poderá se produzir um “bogotaço” brasileiro, como ocorreu em meados do século passado, em Bogotá, na Colômbia, destruindo durante semanas quase tudo que se via pela frente.

Estimo que as elites do atraso, apoiadas por uma mídia conservadora, por uma Justiça fraca, para não dizer cúmplice, e pelo aparato policial do Estado, reocupado por elas, poderão usar de grande violência, agravando a situação. Nesse quadro, como ainda alimentar a esperança de que o Brasil tem jeito e que podemos criar uma sociedade menos malvada, no dizer de Paulo Freire?

ESPERANÇA – Bem disse o bispo dom Pedro Casaldáliga lá dos fundos do Araguaia: portadores de esperança são aqueles que se empenham para superar situações de barbárie. Essas mudanças nunca virão de cima, nem do atual establishment; virão de baixo, dos movimentos sociais organizados e de parcelas de partidos comprometidos com o bem-estar do povo.

O papa Francisco, ao reunir-se com os movimentos sociais latino-americanos em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, propôs que sigamos estes três pontos fundamentais: a economia para a vida, e não para o mercado; a justiça social, sem a qual não haverá paz; e o cuidado com a Casa Comum, sem a qual nenhum projeto terá sentido.

A esperança nasce desse compromisso de transformação. Ensinou Ernst Bloch: a esperança não uma virtude entre outras. Ela é muito mais: é o motor de todas elas. É a capacidade de pensarmos o novo ainda não ensaiado; é a coragem de sonhar outro mundo possível e necessário; é a ousadia de projetar utopias que nos fazem caminhar e que, quando derrotados, nos fazem levantar para retomar a caminhada. Essa esperança não pode morrer nunca.

As mulheres na vida de Jesus e a companheira Míriam de Mágdala

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Jesus é judeu, e não cristão, mas rompeu com o antifeminismo de sua tradição religiosa. Mostrava-se sensível a tudo o que pertence à esfera do feminino, em contraposição aos valores do masculino cultural, centrado na submissão da mulher. Nele se encontram sensibilidade, capacidade de amar e perdoar, ternura para com as crianças e os pobres e compaixão para com os sofredores deste mundo. Abertura indiscriminada a todos, especialmente a Deus, chamando-o de “Paizinho querido”. Cercado de discípulos homens e mulheres, desde o início de sua peregrinação, elas o seguiam.

Em razão da utopia que prega – o Reino de Deus, a libertação de todo tipo de opressão –, quebra vários tabus que pesavam sobre as mulheres. Mantém profunda amizade com Marta e Maria. Contra o ethos do tempo, conversa publicamente e a sós com uma herege samaritana, causando perplexidade aos discípulos. Deixa-se ungir os pés por uma prostituta, Madalena. São várias as mulheres curadas por Ele: a sogra de Pedro, a mãe do jovem ressuscitado por Jesus, a filhinha morta do oficial romano, a mulher corcundinha, a pagã siro-fenícia e a mulher que sofria de um fluxo de sangue.

MULHERES DIGNAS – Em suas parábolas há muitas mulheres, especialmente pobres, como a que extraviou a moeda, a viúva que depositou dois trocados no cofre do templo, e era tudo o que tinha, e a outra viúva, que enfrentou o juiz. Nunca são discriminadas, mas dignas, à altura dos homens. A crítica que faz da prática social do divórcio pelos motivos mais fúteis e a defesa do laço indissolúvel do amor têm seu sentido ético de salvaguarda da dignidade da mulher.

Se admiramos a sensibilidade feminina de Jesus, seu profundo sentido espiritual da vida, então devemos supor que ele aprofundou essa dimensão a partir de seu contato com as mulheres com que conviveu. Aprendeu, não só ensinou. As mulheres, com sua “anima”, completaram seu masculino, o “animus”.

A mensagem e a prática de Jesus significam uma ruptura com a situação imperante e a introdução de um novo tipo de relação, fundado não na ordem patriarcal da subordinação, mas no amor como mútua doação que inclui a igualdade entre o homem e a mulher.

‘COMPANHEIRA” – Um dado de pesquisa recente vem confirmar essa constatação. Dois textos apócrifos, o Evangelho de Maria e o Evangelho de Felipe, mostram que, como homem, ele viveu profundamente essa dimensão.

Aí se diz que ele tinha uma relação especial com Míriam de Mágdala, chamada de “companheira”. No Evangelho de Maria, Pedro confessa: “Irmã, nós sabemos que o Mestre te amou diferentemente das outras mulheres”; e Levi reconhece que “o Mestre a amou mais que a nós”. Ela vem apresentada como sua principal interlocutora, comunicando-lhe ensinamentos subtraídos aos discípulos. Das 46 perguntas que esses fazem a Jesus, depois de sua ressurreição, 39 são feitas por Míriam de Mágdala.

O Evangelho de Felipe diz: “Míriam é para Ele uma irmã, uma mãe e uma esposa”. Mais adiante, particulariza: “O Senhor amava Míriam mais que todos os demais discípulos e a beijava com frequência na boca”.

ALGO MAIS SAGRADO– Embora tais relatos possam ser interpretados no sentido espiritual dos gnósticos, pois essa é sua matriz, não devemos excluir um fundo histórico verdadeiro, uma relação concreta e carnal de Jesus com Míriam de Mágdala. Por que não? Há algo mais sagrado que o amor efetivo entre um homem e uma mulher?

Um dito antigo da teologia afirma: “Tudo aquilo que não é assumido por Jesus Cristo não é redimido”. Se a sexualidade não tivesse sido assumida por Jesus, não teria sido redimida. A dimensão sexuada de Jesus não tira nada de sua dimensão divina. Antes a torna profundamente humana.

Como o patriarcado se impôs ao matriarcado há mais de 10 mil anos

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

É difícil rastrear os passos que possibilitaram a liquidação do matriarcado e o triunfo do patriarcado, há 10 mil, 12 mil anos. Mas foram deixados rastros dessa luta de gêneros. A forma como foi relido o pecado de Adão e Eva nos revela o trabalho de desmonte do matriarcado pelo patriarcado. Essa releitura foi apresentada por duas conhecidas teólogas feministas, Riane Eisler e Françoise Gange.

Segundo elas, se realizou um processo de culpabilização das mulheres no esforço de consolidar o domínio patriarcal. Os ritos e símbolos sagrados do matriarcado são diabolizados e retroprojetados às origens na forma de um relato primordial, com a intenção de apagar totalmente os traços do relato feminino anterior.

PECADO ORIGINAL – O atual relato do pecado das origens, acontecido no paraíso terrenal, coloca em xeque quatro símbolos fundamentais da religião das grandes deusas-mães.
O primeiro símbolo a ser atacado foi a própria mulher (Gn 3,16), que na cultura matriarcal representava o sexo sagrado, gerador de vida. Como tal, ela simbolizava a Grande Mãe, a Suprema Divindade.

Em segundo lugar, desconstruiu-se o símbolo da serpente, considerado o atributo principal da Deusa Mãe. Ela representava a sabedoria divina que se renovava sempre, como a pele da serpente. Em terceiro lugar, desfigurou-se a árvore da vida, sempre tida como um dos símbolos principais da vida. Ligando o céu com a terra, a árvore continuamente renova a vida, como fruto melhor da divindade e do universo. Gênesis 3,6 diz explicitamente que “a árvore era boa para se comer, uma alegria para os olhos e desejável para se agir com sabedoria”.

E em quarto lugar, destruiu-se a relação homem-mulher que originariamente constituía o coração da experiência do sagrado. A sexualidade era sagrada, pois possibilitava o acesso ao êxtase e ao saber místico.

UMA INVERSÃO – Ora, o que fez o atual relato do pecado das origens? Inverteu totalmente o sentido profundo e verdadeiro desses símbolos. Dessacralizou-os, diabolizou-os e os transformou de bênção em maldição.

A mulher será eternamente maldita, feita um ser inferior. O texto bíblico diz explicitamente que “o homem a dominará” (Gen 3,16). O poder da mulher de dar a vida foi transformado numa maldição: “multiplicarei o sofrimento da gravidez” (Gn 3,16). A inversão foi total e de grande perversidade.

A serpente é maldita (Gn 3,14) e feita símbolo do demônio tentador. O símbolo principal da mulher foi transformado em seu inimigo fidagal: “porei inimizade entre ti e a mulher… tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3,15).

PERIGO MORTAL – A árvore da vida e da sabedoria vem sob o signo do interdito (Gn 3,3,). Antes, na cultura matriarcal, comer da árvore da vida era se imbuir de sabedoria. Agora, comer dela significa um perigo mortal (Gn 3,3), anunciado por Deus mesmo. O cristianismo posterior substituirá a árvore da vida pelo lenho morto da cruz, símbolo do sofrimento redentor de Cristo.

O amor sagrado entre o homem e a mulher vem distorcido: “entre dores darás à luz os filhos; a paixão arrastar-te-á para o marido e ele te dominará” (Gn 3,16). A partir de então se tornou impossível uma leitura positiva da sexualidade, do corpo e da feminilidade.

Aqui se operou uma desconstrução total do relato anterior, feminino e sacral. Apresentou-se outro relato das origens, que vai determinar todas as significações posteriores. Todos somos, bem ou mal, reféns do relato adâmico, antifeminista e culpabilizador.

No início, o mundo era feminino: a sexualidade o tornou diferente

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Charge do Duke (dukechargista.com.br)

Leonardo Boff
O Tempo

O presente texto quer ser uma contribuição ao debate sobre o feminino, tão distorcido pela cultura patriarcal dominante. De saída já afirmamos: o feminino veio primeiro. Várias são as etapas. A vida existe na Terra há 3,8 bilhões de anos. O antepassado comum de todos os viventes foi, provavelmente, uma bactéria unicelular sem núcleo que se multiplicava espantosamente por divisão interna.

Há 2 bilhões de anos, surgiu uma célula com membrana e dois núcleos, dentro dos quais se encontravam os cromossomos. Nela se identifica a origem do sexo. Quando ocorria a troca de núcleos entre duas células binucleadas, gerava-se um único núcleo com os cromossomos em pares.

ENCONTRO DE CÉLULAS – Antes, as células se subdividiam, agora se dá a troca entre duas células diferentes com seus núcleos. A célula se reproduz sexualmente a partir do encontro com outra célula. Revela-se assim a simbiose – composição de diferentes elementos –, que, junto com a seleção natural, representa a força mais importante da evolução. Tal fato tem consequências filosóficas: a vida é tecida mais de trocas, de cooperação e de simbiose do que da luta competitiva pela sobrevivência.

Nos dois primeiros bilhões de anos, não existiam órgãos sexuais específicos. Existia uma existência feminina generalizada que, no grande útero dos oceanos, lagos e rios, gerava vidas. Nesse sentido, podemos dizer que o princípio feminino é primeiro e originário.

Só quando os seres vivos deixaram o mar foi surgindo o pênis, algo masculino que, tocando a célula, passava a ela parte de seu DNA, onde estão os genes.

OS VERTEBRADOS – Com o aparecimento dos vertebrados há 370 milhões de anos, estes criaram o ovo amniótico cheio de nutrientes e consolidaram a vida em terra firme. Com os mamíferos, há cerca de 125 milhões de anos, surgiu a sexualidade, definida como macho e fêmea. Aí emergem o cuidado, o amor e a proteção da cria. Há 70 milhões de anos, apareceu nosso ancestral mamífero, que vivia nas copas das árvores, nutrindo-se de brotos e flores. Com o desaparecimento dos dinossauros, há 67 milhões de anos, puderam ganhar o chão e se desenvolver, chegando aos dias de hoje.

Todas as glândulas sexuais no homem e na mulher são comandadas pela hipófise, sexualmente neutra, e pelo hipotálamo, que é sexuado. Essas glândulas secretam no homem e na mulher os dois hormônios: o androgênio (masculino) e o estrogênio (feminino). São responsáveis pelas características secundárias da sexualidade. A predominância de um ou de outro hormônio produzirá uma configuração e um comportamento com características femininas ou masculinas. Se no homem houver uma impregnação maior do estrogênio, terá alguns traços femininos; o mesmo se dá com a mulher com referência ao androgênio.

ASSEXUADO – Importa ainda dizer que a sexualidade possui uma dimensão ontológica. O ser humano não possui sexo. Ele é assexuado em todas as suas dimensões, corporais, mentais e espirituais. Até a emergência da sexualidade, o mundo era dos mesmos e dos idênticos.

Com a sexualidade emerge a diferenciação pela troca entre diferentes. São diferentes para poderem se inter-relacionar e estabelecer laços de convivência. É o que ocorre com a sexualidade humana: cada um, além da força instintiva que sente em si, sente também a necessidade de canalizar e sublimar tal força. Quer amar e ser amado, não por imposição, mas por liberdade. A sexualidade desabrocha no amor, a força mais poderosa “que move o céu e as estrelas”(Dante) e também nossos corações. É a suprema realização que o ser humano pode almejar.

Mas retenhamos: o feminino vem primeiro e é básico.

As novas formas de coabitação na atual perspectiva ética e espiritual

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Hoje, tornou-se comum haver dois pais ou duas mães

Leonardo Boff
O Tempo

Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitações e uniões livres), que se formam consensualmente fora do marco tradicional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal. Crescem no Brasil e no mundo todo as uniões entre homoafetivos, que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Não é lícito emitir um juízo ético sobre essas formas de coabitação sem antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando nos dias atuais?

CONJUNTO DE PESSOAS – Marco Antônio Fetter, criador da Universidade da Família, assim a define: “A família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”.

Transformação maior ocorreu na família com a introdução dos preservativos e dos anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, ajudando a evitar as doenças sexualmente transmissíveis. Com isso, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade, bem como o matrimônio, é vista como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar, fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos são queridos e decididos de comum acordo.

UNIÕES LIVRES – A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são estritamente matrimoniais. Expressão disso são as uniões consensuais e livres, sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4 – 12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações. Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus.

Se as pessoas comprometidas assim o fizerem e assumirem a relação com responsabilidade, não se pode negar a ela relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda a superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a estabilidade, diminuindo os preconceitos sociais.

PROCRIAÇÃO SEM SEXO – Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo com a procriação in vitro, a inseminação artificial e o “útero de aluguel”. A questão é polêmica em termos éticos e espirituais, e sobre isso parece não haver consenso. A posição oficial católica tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual dos esposos. O ser humano tem direito de nascer humanamente de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se, por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o reto propósito ético.

O filho que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica. É importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai de forma bem-sucedida. Assim se evitam danos psicológicos.

Deve-se sempre entender a vida como a culminância da cosmogênese é o maior dom do Criador.

As novas formas de coabitação numa perspectiva ética e espiritual

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Charge reproduzida do Arquivo Google

Leonardo Boff
O Tempo

Ao lado das famílias-matrimônio que se constituem no marco jurídico-social e sacramental, mais e mais surgem as famílias-parceria (coabitações e uniões livres), que se formam consensualmente fora do marco tradicional e perduram enquanto houver a parceria, dando origem à família consensual não conjugal. Crescem no Brasil e no mundo todo as uniões entre homoafetivos, que lutam pela constituição de um quadro jurídico que lhes garanta estabilidade e reconhecimento social.

Não é lícito emitir um juízo ético sobre essas formas de coabitação sem antes entender o fenômeno. Concretamente: como conceituar a família face às várias formas como ela está se estruturando nos dias atuais?

A FAMÍLIA – Marco Antônio Fetter, criador da Universidade da Família, assim a define: “a família é um conjunto de pessoas com objetivos comuns e com laços e vínculos afetivos fortes, cada uma delas com papel definido, onde naturalmente aparecem os papéis de pai, de mãe, de filhos e de irmãos”.

Transformação maior ocorreu na família com a introdução dos preservativos e dos anticoncepcionais, hoje incorporados à cultura como algo normal, ajudando a evitar as doenças sexualmente transmissíveis. Com isso, a sexualidade ficou separada da procriação e do amor estável.

Mais e mais a sexualidade, bem como o matrimônio, é vista como chance de realização pessoal, incluindo ou não a procriação. A sexualidade conjugal ganha mais intimidade e espontaneidade, pois, pelos meios contraceptivos e pelo planejamento familiar, fica liberada do imprevisto de uma gravidez não desejada. Os filhos são queridos e decididos de comum acordo.

COABITAÇÃO – A ênfase na sexualidade como realização pessoal propiciou o surgimento de formas de coabitação que não são estritamente matrimoniais. Expressão disso são as uniões consensuais e livres, sem outro compromisso que a mútua realização dos parceiros ou a coabitação de homoafetivos.

Tais práticas, por novas que sejam, devem incluir também uma perspectiva ética e espiritual. Importa zelar para que sejam expressão de amor e de mútua confiança. Se houver amor, para uma leitura cristã do fenômeno, tem a ver com Deus, pois Deus é amor (1 Jo 4 – 12.16). Então, não cabem preconceitos e discriminações.

Antes, cumpre ter respeito e abertura para entender tais fatos e colocá-los também diante de Deus. Se as pessoas comprometidas assim o fizerem e assumirem a relação com responsabilidade, não se pode negar a ela relevância religiosa e espiritual. Cria-se uma atmosfera que ajuda a superar a tentação da promiscuidade e reforça-se a estabilidade, diminuindo os preconceitos sociais.

INSEMINAÇÃO – Se há sexo sem procriação, pode haver procriação sem sexo com a procriação in vitro, a inseminação artificial e o “útero de aluguel”. A questão é polêmica em termos éticos e espirituais, e sobre isso parece não haver consenso.

A posição oficial católica tende a uma visão naturista, exigindo para a procriação a relação sexual dos esposos. O ser humano tem direito de nascer humanamente de um pai e de uma mãe que em seu amor o desejaram. Se, por qualquer problema, recorre-se a uma intervenção técnica, nunca pode-se perder a ambiência humana e o reto propósito ético.

O filho que daí procede deve poder ter nome e sobrenome e ser recebido socialmente. A identidade social, nestes casos, é mais importante, antropologicamente, que a identidade biológica. É importante que a criança seja inserida num ambiente familiar para que, em seu processo de individuação, possa realizar o complexo de Electra em relação à mãe ou o de Édipo em relação ao pai de forma bem-sucedida. Assim se evitam danos psicológicos.

Deve-se sempre entender a vida como a culminância da cosmogênese e o maior dom do Criador.

A solução para a crise da Terra não vem do céu, mas depende de nós todos

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Ilustração do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

O que vou escrever aqui será de difícil aceitação pela maioria dos leitores. Embora o que diga seja fundado nas melhores cabeças científicas, a situação do planeta Terra e seu eventual colapso, ou um salto quântico para outro nível de realização, não penetraram, no entanto, na consciência coletiva nem nos grandes centros acadêmicos. Continua imperando o velho paradigma, surgido no século XVI com Newton, Francis Bacon e Kepler, atomístico, mecanicista e determinístico, como se não tivessem existido Einstein, Hubble, Planck, Swimme, Capra e outros que elaboraram a nova visão do universo e da Terra.

Para iniciar, cito as palavras do Prêmio Nobel de Biologia de 1974, Christian de Duve: “A evolução biológica marcha em ritmo acelerado para uma grave instabilidade. Nosso tempo lembra uma daquelas importantes rupturas na evolução, assinaladas por grandes extinções em massa”.

GEOCIDA – Desta vez ela não vem de algum meteoro rasante, mas do próprio ser humano, que pode ser não só suicida e homicida, mas também ecocida, biocida e, por fim, geocida. Ele pode pôr fim à vida em nosso planeta, deixando apenas os micro-organismos, que se contam em quatrilhões de quatrilhões de bactérias, fungos e vírus.

Em razão dessa ameaça da máquina de morte fabricada pela irracionalidade da modernidade, se introduziu a expressão “Antropoceno”, uma espécie de nova era geológica na qual a devastação deriva do próprio ser humano (antropos). Ele intervém de forma tão profunda nos ritmos da natureza e da Terra que está afetando as bases ecológicas que as sustenta. Segundo os biólogos Wilson e Ehrlich, desaparecem entre 70 mil e 100 mil espécies de seres vivos por ano devido à relação hostil que o ser humano mantém com a natureza. A consequência é clara: a Terra perdeu seu equilíbrio, e os eventos extremos o mostram irrefutavelmente. Só ignorantes como Trump negam as evidências empíricas.

ECOCENO – Em contrapartida, o cosmólogo Brian Swimme e uma dezena de cientistas que na Califórnia estudam a história do universo se esforçam para apresentar uma saída salvadora. Eles criaram a expressão “era Ecozoica” ou “Ecoceno”, uma quarta era Biológica, Sucedendo ao Paleozoico, ao Mesozoico e ao nosso Neozoico.

A era Ecozoica parte de uma visão do universo em cosmogênese. Sua característica é não a permanência, mas a evolução, a expansão e a autocriação de emergências cada vez mais complexas que permitem o surgimento de novas galáxias, estrelas e formas de vida na Terra. Essa era Ecozoica representa uma restauração do planeta mediante uma relação de cuidado, respeito e reverência. A economia é não a da acumulação, mas a do suficiente para todos, de modo que a Terra refaça seus nutrientes. O futuro da Terra não cairá do céu, mas das decisões que tomarmos.

BEM-ESTAR – Cito Swimme: “O futuro será determinado entre aqueles comprometidos com o Tecnozoico, um futuro de exploração crescente da Terra como recurso, tudo para o benefício dos humanos, e aqueles comprometidos com o Ecozoico, um novo modo de relação com a Terra; em que o bem-estar de toda a comunidade terrestre é o principal interesse”.

Se este não predominar, conheceremos possivelmente uma catástrofe, desta vez efetuada pela própria Terra, para se livrar de uma de suas criaturas, que ocupou todos os espaços de forma violenta e ameaçadora às demais espécies, que têm a mesma origem e o mesmo código genético e são seus irmãos e irmãs. Temos que merecer subsistir neste planeta. Mas isso depende de uma relação amigável com a natureza e a vida e uma profunda transformação nas formas de viver.

Esta é a encruzilhada de nosso tempo: ou mudar, ou desaparecer.

Neste momento da história, o centro de tudo está numa mulher, Maria de Nazaré

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A festa do Natal está toda concentrada na figura da criança Jesus, o Filho de Deus, que decidiu morar entre nós. A celebração do Natal vai além desse fato. Restringindo-se somente a ele, caímos no erro teológico do cristomonismo (só Cristo conta), olvidando que existem ainda o Espírito e o Pai, que sempre atuam conjuntamente.

Cabe realçar a figura de Sua Mãe, Maria de Nazaré. Se ela não tivesse dito o “sim”, Jesus não teria nascido. E não haveria o Natal.

PATRIARCADO – Como ainda somos reféns da era do patriarcado, este nos impede de comprender e valorizar o que diz o Evangelho de Lucas a respeito de Maria: “O Espírito Santo virá sobre ti e a energia do Altíssimo armará sua tenda sobre ti e é por isso que o Santo gerado será chamado Filho de Deus”(Lc 1,35).

As traduções comuns, dependentes de uma leitura “masculinista”, dizem: “a virtude do Altíssimo te cobrirá com sua sombra”. O original grego afirma: “a energia do Altíssimo armará sua tenda sobre ti”. Trata-se de um modismo linguístico hebraico para significar “morar não passageira, mas definitivamente”, sobre Maria. Como afirma o texto, a partir de agora, Maria de Nazaré será a portadora permanente do Espírito. Ela foi “espiritualizada”, quer dizer, o Espírito faz parte dela.

Curiosamente, a mesma palavra “tenda” são João aplica à encarnação do Verbo: “E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós”, quer dizer, morou definitivamente entre nós.

ESPÍRITO SANTO – Qual a conclusão que tiramos? Que a primeira pessoa divina enviada ao mundo não foi o Filho, a segunda pessoa da Santíssima Trindade. Foi o Espírito Santo. Quem é o terceiro na Trindade é o primeiro na ordem da criação, isto é, o Espírito Santo. O receptáculo dessa vinda foi uma mulher do povo, simples como todas as mulheres camponesas da Galileia, de nome Miriam, ou Maria.

Ao acolher a vinda do Espírito, ela foi elevada à altura da divindade. Por isso, diz: “o Santo gerado será chamado Filho de Deus” (Lc 1,35). Somente alguém que está na altura de Deus pode gerar um Filho de Deus. Maria, por essa razão, será divinizada, semelhantemente ao homem Jesus de Nazaré. É o Filho eterno encarnado em nossa realidade humana que celebramos no Natal.

MARIA DE NAZARÉ – Eis que, num momento da história, o centro é ocupado por uma mulher, Maria de Nazaré. Nela estão presentes duas pessoas divinas: o Espírito Santo e o Filho do Pai.

Nossa Senhora de Guadalupe, com traços mestiços, tão venerada pelo povo mexicano, aparece como uma mulher grávida, com todos os símbolos da gravidez da cultura dos astecas. Sempre que vou ao México, visito a bela imagem de pano de Guadalupe. Vestido de frade, várias vezes perguntei a um peregrino anônimo: “Hermanito, tu adoras a la Virgen de Guadalupe?” E recebia sempre a mesma resposta: “Si, frailecido, como no voy adorar a la Virgen de Guadalupe? Si que la adoro”.

Pois nessa mulher se escondem as duas pessoas divinas, o Filho que crescia em suas entranhas pela energia do Espírito que morava nela. E ambas, sendo Deus, podem e devem ser adoradas. Daí nasceu a inspiração para o meu livro “O Rosto Materno de Deus”.

PORÇÃO DIVINA – Sempre lamentei que a maioria das mulheres, mesmo teólogas, não tenha assumido ainda sua porção divina, presente em Maria, por obra do Espírito Santo. Ficam só com o Cristo, o homem divinizado.

O Natal será mais completo se, junto ao Menino que tirita de frio na manjedoura, incluirmos sua Mãe, que o acalenta amparada por seu esposo, José. Ele também mereceria uma reflexão especial: sua relação com o Pai Celeste.

No meio da crise de nosso país, há ainda uma estrela como a de Belém a nos dar esperança.

O intento de recolonizar o Brasil assumido pelo atual governo

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Charge do Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

A colonização e, especialmente, a escravidão não constituem apenas etapas passadas da história. Suas consequências perduram até hoje. A prova clara é a dominação e a marginalização das populações um dia colonizadas e escravizadas com base na dialética da superioridade-inferioridade, nas discriminações por causa da cor da pele, no desprezo e até no ódio ao pobre.

Não basta a descolonização política. A recolonização ressurge na forma do capitalismo econômico, liderado por capitalistas neoliberais nacionais, articulados com os transnacionais. A lógica que rege a recolonização é tirar o máximo proveito do extrativismo dos bens e serviços naturais e da exploração da força de trabalho, malpaga e, quando possível, pela redução de seus direitos individuais e sociais.

DESCOLONIZAÇÃO – Os primeiros a verem claro a recolonização foram Frantz Fanon, da Argélia, e Aimé Césaire, do Haiti. Propuseram um corajoso processo de descolonização para liberar a “história que foi roubada” pelos dominadores e que agora pode ser recontada e reconstruída pelo próprio povo.

No entanto, trava-se um duro embate por parte daqueles que querem prolongar a colonização e a escravidão, criando obstáculos para aqueles que buscam fazer uma história soberana baseada em seus valores culturais e suas identidades étnicas.

Césaire cunhou a palavra “negritude” para expressar duas dimensões: uma, da continuada opressão contra os negros, e outra, da resistência persistente e da luta obstinada contra todo tipo de discriminação. A “negritude” é a palavra-força que inspira a luta pelo resgate da própria identidade e pelo direito às diferenças. Césaire criticou duramente a civilização europeia por sua cobiça, invadindo, ocupando e roubando as riquezas dos outros países, atitude espiritualmente indefensável por ter difundido a discriminação e o ódio raciais.

COLONIALIDADE – Paralelamente ao conceito de “negritude”, criou-se o de “colonialidade” pelo cientista social peruano Anibal Quitano (1992). Por ela quer-se expressar os padrões que os países centrais e o próprio capitalismo globalizado impõem aos países periféricos: o mesmo tipo de relação predatória da natureza, as formas de acumulação e de consumo, os estilos de vida e os mesmos imaginários produzidos pela máquina midiática. Dessa forma, continuam a lógica do encobrimento do outro, o roubo de sua história e a destruição das bases para a criação de um processo nacional soberano. O Norte global está impondo a colonialidade em todos os países.

O neoliberalismo radical que está imperando na América Latina e de forma cruel no Brasil é a concretização da colonialidade. O poder mundial, seja dos Estados hegemônicos, seja das grandes corporações, quer reconduzir a América Latina à situação de colônia. É a recolonização como projeto da nova geopolítica mundial.

ENTREGUISMO – O golpe que foi dado no Brasil em 2016 se situa exatamente nesse contexto: trata-se de solapar um caminho autônomo e entregar a riqueza social e natural às grandes corporações. Isso se faz pelas privatizações de nossos bens. Freia-se o processo de industrialização para dependermos das tecnologias vindas de fora. A função que nos é imposta é a de sermos grandes exportadores de commodities.

Nomes notáveis da ecologia nos alertam que o sistema Terra chegou a seu limite e não suporta um projeto com tal nível de agressão social e ecológica. Ora, esse modelo, para nossa desgraça, é assumido pelo atual governo, corrupto e totalmente descolado do povo, praticante de um neoliberalismo radical que implica o desmonte da nação. Daí o dever cívico e patriótico de derrotarmos as elites do atraso, antipovo e antinacionais. Tudo tem limites. Há de surgir uma consciência patriótica na forma de uma generalizada rejeição social.

 

A concepção do ser humano nos limites de uma ecologia integral

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Ilustração de Duke (O Tempo)

Leonardo Boff
O Tempo

Em sua encíclica “Sobre o Cuidado da Casa Comum”, o papa Francisco submeteu a uma rigorosa crítica o clássico antropocentrismo de nossa cultura a partir da visão de uma ecologia integral, cosmocentrada, dentro da qual o ser humano comparece como parte do Todo e da natureza. Isso nos convida a revisar nossa compreensão do ser humano nos limites dessa ecologia integral.

Perguntamo-nos, não sem certa perplexidade: quem somos, afinal, enquanto humanos? Tentando responder: o ser humano é uma manifestação da energia de fundo, de onde tudo provém (vácuo quântico ou fonte originária de todo ser); um ser cósmico, parte de um universo, possivelmente entre outros paralelos, articulado em 11 dimensões (teoria das cordas); formado pelos mesmos elementos físico-químicos e pelas mesmas energias que compõem todos os seres; somos habitantes de uma galáxia média e circulamos ao redor do Sol, estrela de quinta magnitude, uma entre outras 300 bilhões, situada a 27 mil anos-luz do centro da Via Láctea, no braço interior do espiral de Órion; morando num planeta minúsculo, a Terra, tida como um superorganismo vivo, que funciona como um sistema que se autorregula, chamado Gaia.

ELO DA CORRENTE – Somos um elo da corrente da vida; um animal, portador da psique ordenada por emoções e pela estrutura do desejo, de arquétipos ancestrais e coroada pelo espírito que é aquele momento da consciência pelo qual se sente parte de um Todo maior, que o faz sempre aberto ao outro e ao infinito; capaz de intervir na natureza e, assim, de fazer cultura, de criar e captar significados e valores e se indagar sobre o sentido derradeiro do Todo e da Terra, hoje em sua fase planetária, rumo à noosfera, pela qual mentes e corações convergirão numa humanidade unificada.

E somos mortais. Custa-nos acolher a morte dentro da vida e a dramaticidade do destino humano. Pelo amor, pela arte e pela fé pressentimos que nos transfiguramos através da morte. E suspeitamos que, no balanço final das coisas, um pequeno gesto de amor verdadeiro e incondicional vale mais que toda a matéria e a energia do universo juntas. Por isso, só vale falar, crer e esperar em Deus se Ele for sentido como prolongamento do amor, na forma do infinito.

PRESENÇA DE DEUS – Pertence à singularidade do ser humano não apenas apreender uma presença, Deus, perpassando todos os seres, senão entreter com ele um diálogo de amizade e de amor. Intuir que Ele seja o correspondente ao infinito desejo que sente, infinito que lhe é adequado e no qual pode repousar.

Esse Deus não é um objeto entre outros, nem uma energia entre outras. Se assim fosse, poderia ser detectado pela ciência. Comparece como aquele suporte, cuja natureza é mistério, que tudo sustenta, alimenta e mantém na existência. Sem Ele, tudo voltaria ao nada ou ao vácuo quântico de onde cada ser irrompeu. Ele é a força pela qual o pensamento pensa, mas que não pode ser pensado. O olho que tudo vê, mas que não pode ser visto. Ele é o mistério sempre conhecido e sempre por conhecer, indefinidamente. Ele perpassa e penetra até as entranhas de cada ser humano e do universo.

UMA EQUAÇÃO – Podemos pensar, meditar e interiorizar essa complexa realidade, feita de realidades. Mas é nessa direção que deve ser concebido o ser humano. Quem ele é e qual é seu destino derradeiro se perde no incognoscível, sempre de alguma forma cognoscível, que é o espaço do mistério de Deus ou do Deus do mistério. Somos seres sendo sem parar. Por isso, é uma equação que nunca se fecha e que permanece sempre em aberto. Quem revelará quem somos?