No silêncio da noite, voando sobre o Atlântico, uma mensagem acorda Jango

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Se o avião fizesse escala no Brasil, Jango seria preso

Sebastião Nery

De repente, no silêncio da noite, como na canção de Peninha cantada por Caetano, voando sobre o Atlântico, já próximo de Pernambuco, ele acordou com a voz do comandante, falando em espanhol: “Atenção, por favor, senhores passageiros. Os fortes ventos que estamos enfrentando nos obrigam a fazer uma escala técnica em Recife, para recarregar o combustível. A demora no aeroporto será de aproximadamente 45 minutos. Obrigado”.

Ele percebe o perigo e diz ao jornalista uruguaio Jorge Otero, seu companheiro de viagem e vizinho de poltrona:

– Estou proibido de entrar em território brasileiro. Comprei esta passagem da Aerolíneas Argentinas com o compromisso de não fazer uma só escala. Então, que o avião retorne à Europa.

E foram os dois à cabine falar com o comandante. Um comissário de bordo tentou impedir. Mas, afinal, o comandante saiu e o ouviu:

– Sou o ex-presidente João Goulart, do Brasil. Estou como asilado na Argentina. (Era no Uruguai, mas vivia mais na Argentina). Se o avião descer no Brasil, serei preso, O senhor deve devolver-me à Europa ou levar-me aonde quiser, a qualquer lugar, menos no Brasil.

JANGO – O comandante estava “rígido e surpreso, com burocrática energia”:

– É impossível atendê-lo. Os ventos frontais foram muito superiores aos previstos e por isso gastamos muito mais combustível do que habitualmente. Quando o senhor comprou a passagem, tinha que saber das escalas assinaladas para uma emergência. Recife é o aeroporto mais perto.

– Mas, comandante, ninguém me avisou nada. Serei retirado do avião e preso. E o senhor será o responsável.

– Senhor, não entrará ninguém no avião. A esta hora só está acordado o responsável pela torre de controle, que vai chamar o pessoal do abastecimento. Não há ninguém no aeroporto.

– Desculpe, comandante. Mas meu nome está na lista de passageiros, que o senhor deverá entregar. Será só questão de minutos que venham do quartel e me levem preso. Contra mim, foi decretada uma ordem de prisão pela ditadura brasileira. Não posso entrar no Brasil, porque serei preso.

– Senhor, este é um avião argentino, sob meu comando. Não permitirei a ninguém que leve nenhum dos passageiros sob minha responsabilidade. Estamos em território argentino.

– Comandante, esta é uma aeronave civil. O senhor não vai poder fazer nada quando um punhado de soldados entrar aqui. A responsabilidade por isso, que surpreenderá o mundo, será exclusivamente do senhor.

– Vou ver o que posso fazer, mas não alimentem muitas esperanças.

RECIFE, NÃO – E voltou para a cabine. Jango e seu amigo para os lugares deles. O jornalista uruguaio tentou aliviar a tensão de Jango:

– Presidente, o senhor me disse que em Madrid comprou a passagem em nome de Belchior Marques. Talvez não se deem conta de quem é.

– É possível, Jorge. Mas o chefe da guarnição militar de Recife foi promovido por mim. Tem que saber quem é o passageiro Belchior Marques

O tempo vai passando e nada. De repente, a voz do comandante:

– Atenção, por favor. Aqui fala o comandante. Quero informar que os cálculos do combustível que resta e a sensível melhora nos ventos tornam desnecessário descer em Recife. O voo será sem escalas até Buenos Aires.

Jango, afinal, voltou a dormir. Era 12 de outubro de 76.

Saudades do José Geraldo Grossi, um patriota e um homem universal.

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Grossi foi um dos maiores criminalistas do país

Sebastião Nery

Estudante em Belo Horizonte, na década de 50, a “Republica da JUC”era santo abrigo: casarão cercado de jardins, frutas e flores, quase esquina com a Av. Amazonas, a 200 metros da Faculdade, dirigida pelo santo padre Viegas e liderada por João Bosco Cavalcanti Lana, da JUC de Direito.

A Universidade quase toda representada ali: José Gerardo Grossi, o grande advogado e ministro, já tinha cara de advogado. Fabio Lucas, hoje consagrado escritor e critico literário, já escrevia e publicava.

UM PASTOR ALEMÃO – Um alemão, vizinho, que morava sozinho, tinha um cão enorme, que latia a noite toda. Não deixava ninguém estudar, ler ou dormir em paz. Alguém teve a idéia de dar um bolo com veneno, logo eliminada. Creio que foi do Fabio Lucas a idéia genial. Um anuncio no “Estado de Minas”:

– “Por motivo de viagem urgente, doa-se um belo pastor alemão a quem prometer cuidar bem dele. Favor comparecer às seis da manhã de amanhã, rua tal, numero tal, tocar campainha”.

O alemão quase enlouqueceu. A fila foi lá na Avenida Amazonas. Não adiantava ele gritar que era mentira. Todo mundo mostrava o recorte do jornal. À tarde, ele procurou padre Viegas e fez um pacto de paz: o cão não ia mais latir de noite. E cumpriu.

UMA REUNIÃO – José Gerardo Grossi, da Faculdade de Direito e da “Republica da JUC” e o Aloísio Ordones, meu colega da Filosofia, convidaram-me para uma reunião onde seriam discutidos os problemas da Universidade e do paÍs. Fui. Lá, fiquei sabendo que era um encontro do “Comitê Universitário da UJC”, a União da Juventude Comunista. Discutiram-se teorias e posições políticas. Mas sobretudo se tratou do que e como fazer.

Troquei de letras. Da JUC, passei para a UJC. E com tarefas concretas. Como orador do Diretório, que tinha seu jornal oficial, o “Filosofia”, minha primeira tarefa foi fundar, dirigir e ser o responsável por um pequeno jornal mimeografado que exprimisse nossas posições sem dizer que eram as propostas da UJC. E nasceu “A Onda”.

EM UBERABA – Primeiro ano de Faculdade, orador do Diretório Acadêmico, saí de Uberaba eleito para o Parlamento do Estudante Mineiro. Foi meu batismo em congressos de estudantes, a que compareci a quase todos, nos três anos de Filosofia e nos cinco de Direito.

Em Uberaba, nós, da oposição (Dario de Paula, Helio Pontes, Fabio Lucas, Mauricio Leite Junqueira, Rivadavia Xavier Nunes, Paulino Cicero, Moacir Laterza, João Bosco Lana, Adônis Moreira, José Gerardo Grossi, eu, tantos outros) fomos dispostos a disputar a diretoria da UEE (União Estadual dos Estudantes), com chapa própria, no voto, na democracia.

O presidente da UEE e do congresso, o Andradinha, era uma parada. Desde o primeiro dia começou a lutar para não perder a eleição. Vetava delegados, obstruía os trabalhos. A cada hora as sessões e os debates iam ficando mais difíceis, mais complicados, mais tensos, com a mesa usando e abusando do direito de ser situação.

JOVENS PROMISSORES – No século passado a Faculdade de Direito de Minas era uma das mais importantes do pais. E se não era a mais agitada, como a Filosofia, era o mais importante centro universitário do Estado. Comandava a UEE (União Estadual de Estudantes).

Na década de 50, lá estavam e vivamente atuando no movimento estudantil, Helio Garcia depois governador, Murilo Badaró depois senador e ministro, Bonifacio Tamm de Andrada, o Andradinha, até hoje deputado, Genival Tourinho, Nelson Thibau, também deputados, Rivadavia Xavier Nunes, depois político em Goiás, José Gerardo Grossi, jurista, ministro do Tribunal Superior Eleitoral, Sepúlveda Pertence, depois ministro do Supremo Tribunal Federal, Geraldo Nunes, Fabio Lucas escritor, e numerosos outros.

Sexta-feira, morreu em Brasília, 86 anos, José Gerardo Grossi. Um patriota e um homem universal. Ajudou a iluminar nossa juventude.

Nery errou de Coreia e foi preso em 1952 como militante comunista

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Nery conta como ocorreu sua primeira prisão

Sebastião Nery

Jamais esquecerei aquela terça-feira, 30 de dezembro de 1952. Tinha 20 anos e amanheci na primeira página de todos os jornais de Minas, execrado com foto e tudo. Havia dois anos apenas, ainda no seminário, de batina, piedoso, estudava filosofia e teologia, certo de que logo seria padre e um dia bispo, quiçá cardeal. Em um dos jornais, a manchete era minha, exclusiva, letras enormes: “Confirmam-se as acusações de “Tribuna de Minas” sobre as ligações do Sr. José Mendonça com os elementos comunistas”.

E no longo subtítulo, minha sentença de morte: “Preso ontem um redator de “O Diário”, justamente o homem de confiança do presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas. Carregava cartazes encimados pelo retrato de Prestes. Vêm de longe as atividades subversivas do Sr. Sebastião Nery”.

“INSTRUMENTO” – A matéria começava assim, sempre na primeira página:

“Um fato policial vem confirmar as denúncias que “Tribuna de Minas” tem feito, em sucessivos editoriais, de que o órgão do pensamento católico no Estado, através da ação consciente ou não de seu redator-chefe, está servindo de instrumento nas mãos dos comunistas em Minas. Referimo-nos à prisão do universitário Sebastião Nery, redator de “O Diário” e protegido do Sr. José Mendonça naquele jornal.

Na tarde de ontem, a polícia varejou uma célula vermelha na rua Carijós, 774, onde se reuniam componentes das conferências pró-defesa dos direitos da juventude, organização esta que já tivemos oportunidade de denunciar. Durante sua repressão, os policiais detiveram diversos elementos ligados às classes estudantis e agitadores, entre os quais se encontrava o referido redator de “O Diário”.

LIÇÃO DE JORNALISMO – Aquela cadeia foi minha primeira grande lição de jornalismo. Ela me ensinou o que é a imprensa muito mais do que os meses em que eu já vinha trabalhando no jornal. Nada do que os vários jornais publicaram sobre mim e meus colegas presos era inteiramente falso.

A “Tribuna de Minas” era um jornal de Ademar de Barros, dirigido por Alexandre Konder, catarinense de talento e coragem, texto brilhante, borbulhante, confessadamente fascista, primo do senador Jorge Konder Bornhausen.

Konder tinha horror ao presidente do Sindicato dos Jornalistas de Minas, José Mendonça, meu mestre e de gerações de jornalistas, redator-chefe de O Diário, jornal da Igreja Católica, onde em 1952 fiz meu batismo profissional, porque Fernando Henrique ainda não havia acabado com a era Vargas e o Sindicato exigia que Konder cumprisse as obrigações trabalhistas.

NA CLANDESTINIDADE – O Partido Comunista e a UJC (União da Juventude Comunista), a que pertencíamos, eram ilegais e drasticamente reprimidos pela polícia. Para atuar politicamente, lançávamos mão de atividades mais amplas ou disfarçadas.

Nas conferências de defesa da juventude, discutíamos o Brasil e o mundo. Nesse dia, instalávamos em Minas o Movimento Mundial da Paz. A guerra da Coréia dividia o mundo e estávamos indignados com a Coréia do Sul, capitalista e dependente dos Estados Unidos, que havia criminosamente invadido a Coréia do Norte, socialista e irmã da União Soviética.

Muitos anos depois, em Roma, numa entrevista coletiva, perguntei a Gorbatchev e ouvi, perplexo, que foi a Coréia do Norte que invadiu a do Sul, e não o contrário, como me disseram na época.

Fui preso merecidamente. Errei de Coréia.

Uma família heroica perde agora seu lado artístico

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Agildo Ribeiro, grande mestre do humor

Sebastião Nery

Agildo Barata, herói dos tenentes dos anos 1920, dos capitães de 1935 e dos comunistas de 1945 (pai do querido Agildo Ribeiro, descendente do baiano Cipriano Barata, cirurgião, filósofo, deputado, mas sobretudo mestre do jornalismo de combate, cuja biografia o historiador Marco Morel escreveu) era o menor e mais valente dos prisioneiros de Fernando de Noronha, entre 1935 e 1945, na ditadura de Getúlio Vargas.

Um guarda enorme, bruto e violento, sempre armado, estava espancando presos, que se reuniram e encarregaram Agildo de falar com ele para dar um basta. Na hora da chamada matinal, todos no pátio, Agildo, baixinho, mãozinha miúda, deu dois passos à frente, ficou algum tempo parado diante do brutamontes, enfiou o dedo no nariz dele e disse que, na primeira vez em que ele batesse em um preso, iria matá-lo em público.

CAIU DURO – O guarda ficou parado, imóvel, arregalou os olhos e bomba!, caiu duro. Começou o corre-corre. Chamaram o médico do presídio. Antes dele, chegou chorando a mulher, debruçou-se sobre ele, gritando desesperada:

– “Meu amor, não morra! Você não pode morrer! Não me deixe!”

Punha a mão nos olhos, no coração, pegava o pulso, conferindo. Chegou o médico. Não adiantava mais nada. O guarda estava morto. A mulher gritava:

– “Doutor, me diga. Ele morreu mesmo? Será que não é só um desmaio?”

– “Não, minha senhora. Morreu. Acalme-se. Não há mais o que fazer.”

ERA UM BANDIDO – A mulher ajoelhou-se, enfiou os dedos nos olhos dele, convenceu-se e se levantou, sorrindo histérica:

– “Graças a Deus, doutor! Ele está morto mesmo! Morreu tarde! Isso era um bandido, um canalha. Me batia, quase me matava todo dia. Morreu tarde. Todo poderoso, todo valentão um dia se acaba!”

Quando os políticos eram estadistas, deixavam lições e não fortunas

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Ulysses enfrentava até os cães da ditadura

Sebastião Nery

Houve um tempo em que os líderes políticos se preocupavam em deixar lições e não fortunas. Esta história de Ulysses Guimarães e seu “exército” em Salvador, na Bahia, em 1978, é um exemplo de como se pode fazer política sem pensar sobretudo em dinheiro. Ninguém me contou. Eu vi. Estava lá. Às 19 horas de um sábado, em 1978, no “hall” do Hotel Praia-Mar, em Salvador, Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Roberto Saturnino e Freitas Nobre receberam a visita de toda a direção do MDB da Bahia com a notícia nervosa:

– A Polícia Militar cercou a praça do Campo Grande e comunicou oficialmente ao partido que não vai permitir a reunião para lançamento das candidaturas da Oposição da Bahia ao Senado.

– Isto é ilegal, disse Ulysses. A portaria do Ministério da Justiça proíbe concentrações em praça pública, mas não em recinto fechado. A sede do partido é inviolável.

Ulysses esfregou as mãos na testa larga, desceu pelos olhos fechados, levantou-se:

– Vou entrar de qualquer jeito. Vamos entrar. É uma arbitrariedade sem limites.

EM FRENTE AO TEATRO – Em vários automóveis, saímos todos, políticos e jornalistas. Foi marcado encontro em frente ao Teatro Castro Alves, do outro lado da sede do MDB.

A praça era um capo de batalha: 500 homens de fuzil com baioneta calada, 28 caminhões-transporte, dezenas de patrulhas, lança-chamas, grossas cordas amarradas nos coqueiros em torno da praça. Ulysses olhou, meditou, comandou:

– Vamos rápido, sem conversar.

Avançou. Atrás dele, Tancredo, Saturnino e a mulher, Freitas Nobre, Rômulo Almeida, Newton Macedo Campos e Hermógenes Príncipe (os três candidatos do MDB ao Senado), deputados Nei Ferreira, Henrique Cardoso, Roque Aras, Clodoaldo Campos, Aristeu Nogueira, Tarsílo Vieira de Melo, Domingos Leonelli, vereador Marcello Cordeiro, Nestor Duarte Neto, eu e outros jornalistas. Uma cerca de fuzis e os soldados impávidos. Quando nos aproximamos, um oficial gritou:

– Parem! Parem!

Ulysses levantou os braços e gritou mais alto:

– Respeitem o presidente da Oposição!

FOMOS EM FRENTE – Ulysses meteu a mão no cano de um fuzil, jogou para o lado, atravessou. Tancredo meteu o braço em outro, passou. O grupo foi em frente. Três imensos cães pastores saltam sobre Ulysses, Freitas Nobre dá um ponta-pé na boca de um, Rômulo Almeida defende-se de outro. Chegamos todos à porta, entramos aos tombos e solavancos. Ulysses sobe à janela, ligam os alto-falantes para a praça:

– Soldados da minha Pátria! Baioneta não é voto, boca de cachorro não é urna!

E os cabelos brancos se iluminavam como os coqueiros ao vento.

Era o comício que não tinha sido planejado. 14 discursos e uma passeata. Graças à batalha de Itararé da Bahia.

Um pequeno Supremo tenta neutralizar a grande Lava Jato

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Charge do Sponholz (sponholz.arq.br)

Sebastião Nery

Em 1964, o general Castelo Branco, em nome da nova ordem, pretendia cassar três ministros do Supremo: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva. Tinham sido indicados para o Supremo pelos ex-presidentes cassados Juscelino Kubistchek e João Goulart. O ministro Alvaro Ribeiro da Costa, presidente do Supremo, com o apoio de todo o colegiado, avisou a Castelo: havendo cassações fecharia o STF e entregaria as chaves ao porteiro do Palácio do Planalto. O governo recuou.

Cinco anos depois, em 1969, com o draconiano Ato Institucional nº 5, os três ministros seriam afastados do Supremo. O mineiro Gonçalves de Oliveira, presidente, e o seu sucessor Antonio Carlos Lafayette Andrada, por discordarem da punição. saíram do Tribunal.

CONTRA A CENSURA – Outro episódio histórico foi em 1971. O ministro Adauto Lúcio Cardoso, indicado por Castelo Branco, em 1966, reagiu com ferocidade ao Decreto-Lei 1.077, do presidente Emílio Médici. Chamada Lei da Mordaça, implantaria a censura prévia “a imprensa e todas as publicações editoriais.” Aprovada a lei antidemocrática, Adauto Lúcio Cardoso, arrancou a toga preta e lançou sobre o plenário do Tribunal, abandonando a sessão e o cargo de ministro. Nunca mais voltou ao Supremo, envergonhado com a decisão de seus pares.

Os dois episódios retratam um tempo em que, nos conflitos jurídicos que atentavam contra a Constituição, os seus ministros reagiam como guardiões da ordem democrática. Não tinha lugar para a teratologia que significa decisão absurda, contrária à lógica e a própria realidade.

DEFINIÇÃO – Chefe de redação do jornal “Valor” (4-4-2018), Rosângela Bittar, definiu o STF atual: “É composto por professores e, sobretudo, por advogados se digladiando diante de um júri imaginário em torno de nada, até que retome a leitura enfadonha do seu empolado voto. Até um decano age como promotor e é preciso ter compaixão da sua sina atual, a de exegeta dos votos, tão díspares e cheios de firulas que precisam ser compatibilizados para que a presidência possa proferir o veredito”.

No artigo “Meu doutorado contra o seu”, Rosângela Bittar, destacava: “Em todas as épocas e composições o Supremo enfrentou dificuldades. Mas eram catedráticos, políticos veteranos e experientes, embaixadores, presidentes da Câmara e do Senado, presidente de tribunais de Justiça dos principais Estados e até advogados que passaram pela política. Octavio Gallotti, Oswaldo Trigueiro, Bilac Pinto, Aleomar Baleeiro. Paulo Brossard, Célio Borja, Oscar Correa, Prado Kelly, Lins e Silva, Victor Nunes Leal, Hermes Lima, Vilas Boas, Gonçalves de Oliveira. Pessoas que emprestavam sua biografia ao Supremo e não foram lá para fazer biografia”.

PELA IMPUNIDADE – Infelizmente hoje a intolerância da vida pública brasileira retrata uma crise em que Executivo, Legislativo e Judiciário se igualam na sua sustentação. Republicanismo parece ser valor secundário para os integrantes dos três poderes. No Judiciário, a decisão de prisão após a segunda instância aprovada pelo STF, por 6×5, firmando jurisprudência, é questionada pelos seus próprios integrantes. Um dos ministros, Gilmar Mendes que votara a favor, agora ao mudar o seu voto, deseja alterar a jurisprudência. Se ocorrer a mudança com o estabelecimento das quatro instâncias de julgamento de um réu, a prescrição de penas aplicada garantirá a impunidade. Prescrição é a subversão garantidora de novos crimes e consolidadora do caos jurídico.

A mudança de posição do ministro ocorre exatamente quando os oligarcas da política no PT, no PMDB, no PSDB, e nos partidos- satélites da base de diferentes governos, em função da Operação Lava Jato, sabem que poderão ser presos. A condenação do ex-presidente Lula, não é fato isolado, daí o pânico dos poderosos da vida política brasileira. A mudança do voto de Gilmar Mendes atende ao desejo desses delinquentes políticos. E o mais grave: ocorrendo a revisão da jurisprudência do STF, a corrupção será a grande vitoriosa. É a alternativa para neutralizar a Operação Lava Jato.

A lição de Juscelino continua valendo: ‘Deus me poupou o sentimento do medo’

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Niemeyer e JK, dois gigantes brasileiros

Sebastião Nery

Candidato a presidente, Juscelino saiu pelo País visitando o PSD. Desceu na Bahia. Antonio Balbino, governador do PSD, ainda estava em cima do muro:

– Qual é a verdadeira posição do Café?

– Qual deles, Balbino? O vegetal ou o animal?

Foi para Pernambuco. Etelvino insistia:

– Juscelino, vamos rever o assunto de fazer a união nacional.

– Etelvino, já sei que você está contra mim, Quando você fala em união nacional, na verdade está pensando em União Democrática Nacional.

– Então você não quer a união?

– Ora, Etelvino, candidato não faz união. Candidato disputa. Quem faz união é governo, depois de empossado.

NÃO TINHA MEDO – E JK voltou para Minas. Em 31 de dezembro, o chefe da Casa Militar da Presidência da República, Juarez Távora (depois candidato da UDN, derrotado por Juscelino), entregou a Café Filho um documento em que “as altas autoridades militares apelavam para uma colaboração interpartidária, um candidato único e civil”.

O documento só foi divulgado no dia 27 de janeiro, em “A Voz do Brasil”. Juscelino respondeu com um discurso duro, escrito por Augusto Frederico Schmidt, que terminava com a frase magistral: “Deus me poupou o sentimento do medo”

A QUEDA DE LÚCIO – Lúcio Bittencourt, querido professor da Faculdade de Direito de Minas, fundador do PTB, deputado federal, era um bravo nacionalista. Quando os estudantes começaram em Minas a campanha de “O petróleo é nosso”, em 1953, convocamos um comício para a praça da estação e convidamos os parlamentares.

A polícia proibiu, alegando que era comício dos comunistas. Nenhum deputado federal apareceu. Apenas alguns estaduais e dirigentes estudantis na praça cheia, cercada pela polícia. E lá na frente, servindo de palanque, vazio, só o microfone, um caminhão sem as laterais.

De repente, chega o deputado e já candidato a senador Lúcio Bittencourt, alto, magro, terno claro, bigodinho preto, e vai direto para o caminhão. Fomos juntos, A polícia não teve coragem de barrá-los. Alguns de nós falamos. Ele pegou o microfone e começou:

– Ontem, chegando a Minas, li nos jornais que a polícia havia proibido este comício. Liguei para o governador Juscelino, ele me disse que eram ordens do Rio. Confesso que tive dúvidas de vir. Mas à noite, dormindo, ouvi o povo me dizendo: Vai, Lúcio, vai! Vai!

E Lúcio foi. Deu um passo à frente e caiu embaixo do caminhão. Ainda tentei segurá-lo pela ponta do paletó, não adiantou. Desabou. Acabou o comício. No dia seguinte, no Palácio, Juscelino dava gargalhadas:

– Eu bem que disse a ele. Não vai, Lúcio, não vai! Não vai!

ANISTIA – Mal JK tomou posse na Presidência da República, em 31 de janeiro de 1956, começaram os levantes militares para derrubá-lo. Juscelino sufocou e mandou para o Congresso um projeto de anistia. A bancada do PTB ficou contra. Oswaldo Lima Filho, líder da bancada, liga para Jurema e comunica que o partido está contra a anistia aos militares sequestradores de avião. Jurema informou a Juscelino, que, do outro lado do telefone, justificou:

– Jurema, diga aos petebistas que não quero governar com mártires.

A anistia foi aprovada.

PROMOÇÃO – Pena Botto, almirante psicopata, entrou na lista de promoções. Juscelino promoveu. Os amigos protestaram. Juscelino explicou:

– Pode ser um mau político, mas é um ótimo marinheiro.

E Juscelino convidou Aberlado Jurema para líder do governo na Câmara.

Abelardo lembrou que havia outros em melhores condições, como Ulysses Guimarães. Juscelino reagiu:

– Você está doido, Jurema. Ulysses na liderança, já no outro dia está pensando em ser candidato à Presidência. E aí, adeus Juscelino.

RASTEIRA DE DILMA – Lula entregou o governo a Dilma e levou uma rasteira. Quando quis substitui-la, era tarde.

Michel entregou a Procuradoria-Geral da República à doutora Raquel Dodge, que está gostando muito do poder, e agora Temer foi atropelado por ela e pelo melífluo Barrosinho, herança de Dilma.

O beijo de Ludmila, a “Rosa de Moscou” que cresceu aprisionada

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Foto reproduzida do Arquivo Google

Sebastião Nery

Ludmila era interprete, jovem e bela. Falava espanhol e português, no Festival Mundial da Juventude, em Moscou, em 1957. Tinha a mãe em Moscou, um irmão em Praga e um avô no Cáucaso. Acabado o Festival, destacaram-na para acompanhar-me como tradutora em debates e palestras em Moscou, na Universidade da Amizade dos Povos.

No fim dos debates, almoçávamos ou jantávamos juntos. Cada dia mais debates, cada dia mais juntos. Falávamos de tudo, sobretudo de nós, que tínhamos exatamente os mesmos 25 anos e os mesmos sonhos. Quando eu passava para a política soviética, ela sorria um sorriso enigmático e calava. Estava profissionalmente impedida de avançar o sinal político.

UM POEMA – Ela não avançava, avancei eu. Já me desmanchando de encantos, depois de um doce jantar no restaurante do hotel “Ukraina”.

Escrevi ali um poema, se é que podia chamar de poema. Era um beijo gráfico, quente e túmido como os beijos de amor: “Rosa de Moscou”. Falava dos jardins de papoulas que cobriam Moscou naquele outono. Pediu para assinar, assinei: – “Para Ludmila, Rosa de Moscou”.

Ela não podia subir a meu apartamento, eu não podia ir à casa dela. Nunca mais fomos os mesmos.

NA CASA DELA – Uma outra noite, caminhando depois do jantar no jardim de papoulas perto do hotel, Ludmila começou a cantar “Móscova Vétchera” (“Tardes de Moscou”) e pela primeira vez me levou à sua casa. O avô estava doente, sua mãe fora para o Cáucaso. A casa, nos subúrbios de Moscou, pequena e ajardinada, era nossa para o fim de semana. E de metrô. Na sala, emoldurado e pendurado, meu “Rosa de Moscou” para ela. Ludmila não falava do pai. Eu perguntava, ela ficava calada, os grandes olhos caucasianos parados, longe. Insisti, disse apenas:

– Morreu. Era jornalista, como você.

E chorou devagarinho. De madrugada, já quietos de amor, forcei – Seu pai morreu de quê?

Ludmila passou a mão embaixo do queixo, como se fosse uma navalha, fez uma cara de horror e disse baixinho: – Stalin.

E dormiu chorando em meus braços a saudade do pai assassinado por Stalin.

GUARDEI A ROSA – No fim de semana em Moscou, voltamos à casinha pequena e ajardinada. O avô de Ludmila nunca mais voltou do Cáucaso. Morreu lá, sem ela revê-lo. Prometi jamais escrever-lhe nem falar em seu nome no que escrevesse ou publicasse. Perderia emprego, carreira, quem sabe a liberdade. Guardei minha “Rosa de Moscou” só para mim.

Quando Ludmila apareceu no hotel de manhã, com o bilhete na mão, para levar-me até a estação ferroviária, meu coração vacilou. Sabia que ia perdê-la para sempre. Aquele era um mundo que engolia as pessoas. Como poderia dar-lhe um beijo de despedida? Queria, mas não devia. Percebeu:

– Não fique triste assim, que ainda vai ser pior para mim do que já é.  Não falta muito para eu perder você. Nunca pensei que aquele jantar, aquele poema, aquelas noites, fossem fazer comigo o que fizeram. Se eu pudesse, sumiria com você. Mas não vamos estragar nosso ultimo almoço. Marquei seu trem para o fim da tarde. Vamos almoçar em um restaurante pequeno, muito bonitinho, perto da ferroviária. Juro que não vou chorar.

E chorou. No fim, brindamos nossa devastadora e silenciosa dor como Stalin brindava com Churchill. Com um conhaque da Geórgia.  Quando o trem deu o segundo aviso de partida, fraquejei:

– Perdão, não resisto, vou lhe dar um beijo.

– Aqui há olhos de todo lado.

Nunca mais a vi. Em 1990, Adido Cultural em Paris, voltei a Moscou para tentar descobri-la. Impossível. Cada esquina continuou uma fantasia.

Um pedaço de mim está até hoje na estação de Ludmila.

Folclore e realidade, no dia a dia absurdo da política brasileira

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O homem é a palavra. O mais é circunstância. A história é a palavra. O resto é consequência. Por isso a história do homem é a história de sua palavra. É a crônica de sua linguagem. É o cotidiano do possível dizer.

Na Grécia livre de Péricles, o discurso era a palavra. Na Judéia oprimida do Cristo, o discurso era a parábula. Na Idade Média torturada de Galileu, o discurso era o silêncio. O que é a Bíblia senão a fábula do povo judeu tiranizado sob os salgueiros da Babilônia? O que foi a tragédia grega senão a metáfora da liberdade? E as fábulas do escravo Esopo, cordeiro respondendo ao inquérito do lobo? E Bernard Shaw roendo a empáfia do império britânico?

PELO ATALHO – Menino de fazenda, cedo aprendi que quando a estrada não dá caminho, toma-se o atalho. É o jeito de dizer, pela boca dos outros, o tornado indizível. O humor é uma linguagem absolutamente séria, necessária, eterna. Desde o começo dos tempos, sempre foi mais proibido proibir o humor.

Folclore não é história. É a versão popular da história. Folclore político não é história política. As histórias vão mudando na boca do povo como as nuvens mudam na boca do vento. Monteiro Lobato definiu exato: “Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro”.

Se Maurice Latey diz que “a história é o povo em ação”, está pondo o folclore como categoria científica, crônica da vida comum, poema do dia a dia, o contar para o outro, o cantar dos medievais menestréis.

PRIMEIRO LIVRO – Quando, em agosto de 1973, no auge do calar a boca nacional, lancei o Folclore Político nº 1 no Clube dos Repórteres Políticos da Guanabara, com a presença de José Américo de Almeida, José Maria Alkmin, Magalhães Pinto e mais de cinquenta colegas de jornalismo político, José Américo com sua competente precisão de linguagem, colocou o livro nos termos preciso:

“É folclore. Nenhuma das histórias a meu respeito é inteiramente exata, mas nenhuma é inteiramente inexata, E são todas muito engaçadas”.

E Alkmin: “Essas histórias do folclore político a gente nunca sabe quais são as verdadeiras e quais as inventadas. O povo vai contando e elas vão se modificando, se reproduzindo. Como os cogumelos. Quem é que sabe quem é a mãe do cogumelo?”

A tiragem de 100 mil exemplares, em três edições, provou inteiramente sua atualidade.

VALOR POLÍTICO – As histórias não são minhas. Recolhi-as, uma a uma, aqui e ali, no Pais inteiro, exatamente como me foram contadas. Mas tenho consciência de seu valor político, antropológico, sociológico. Elas provam duas verdades verdadeiras, nestes dias de tanta verdade mentirosa.

1 – A liderança histórica e permanente do homem político na vida nacional. No distrito, na cidade, no Estado, no País, sempre foi o político quem deu a palavra final. Daí a história das nações ser, antes de tudo, a história de seus políticos, dos que carregam nas mãos o sentimento do povo, sua representação e liderança.

2 – O compromisso de diálogo e da liberdade no dia a dia da vida política brasileira. Os grandes personagens de nosso folclore político, e portanto de nossa política, são em geral homens bons, às vezes primários, mas compreensivos, liberais, humanistas, sábios. A crônica do ódio, da violência, da truculência, da tirania que tanto se vê hoje por ai, não faz parte deste livro. Ela é um grito, um gemido, um ai de exceção. Não está no cotidiano de nosso viver.

Constatar isso já é ver abertas as janelas do amanhã.

Delfim Netto sempre foi assim: do poder, pelo poder, para o poder

Delfim fez uma carreira meteórica no regime militar

Sebastião Nery

Em Paris, 1977, ligo para a embaixada do Brasil: – O embaixador está? – Sim, o senhor ministro está. Quem deseja falar com ele? É assim. Não é o embaixador, é o ministro. Não é o homem daqui, do exterior, é o homem daí, unha e carne com o dia-a-dia nacional. O homem integrado numa jogada política, hora a hora, minuto a minuto. O homem do poder, pelo poder, para o poder. E o poder, já ensinou a História, é a crônica do permanente instante.

Como sabia Napoleão, insuperável guru destas plagas. Não sei por que, talvez exatamente por isso, é em Napoleão que penso, às 8 da manhã fria desta disfarçada primavera parisiense, quando entro no número 5 da rua Amiral d´Estaing, residência do embaixador do Brasil na França. No gabinete amplo, de livros até o teto, está ele como um universitário inglês, daqueles dos filmes de antigamente, uma ilha de sabedoria cercada de papéis por todos os lados.

De sabedoria, não sei. Mas certamente de informação. Encontro-o de livro na mão: “The Concept of Equality in the Writings of Rousseau, Benthram and Kant”, by Alfred T. Williams, 1976.

O GORDO – Quem é mesmo este homem discretamente gordo, bem mais magro do que o apelido dos amigos – O Gordo -, que está lendo “O Conceito da Igualdade”, numa fria manhã de Paris, 8 horas de sábado?

Nasceu em São Paulo no dia 1º de maio de 1928. (- “Condenação ao trabalho? – Aparentemente. Mas também a liberação pelo trabalho”). Pais: Antonio e Maria, imigrantes italianos, do lar. Antonio, funcionário da Light. Modesto. Quase salário-mínimo. Nunca bateu o olho no dr. Galloti. Cresceu no bairro do Cambuci, o Brás dois, como qualquer menino pobre, espiando as gulosas vitrines do Natal dos meninos ricos. Com dezesseis anos, ainda no ginásio, primeiro emprego para ajudar o orçamento de casa: contínuo da Gessy, que ainda não era Lever. Entra na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade de São Paulo. Aí, disparou. Foi logo trabalhar como escriturário do Departamento de Estradas e Rodagem, encarregado do controle de gastos de gasolina. Passou depois para a Bolsa de Mercadorias e Associação Comercial de São Paulo.

ESTILO EUROPEU – Formação toda europeia. Os americanos ainda não haviam multinacionalizado a universidade brasileira. Os professores mais marcantes eram Mr. Stevenson, inglês, que introduziu no Brasil os métodos quantitativos na economia, a aplicação da matemática na economia, e Luís Freitas Bueno, em torno do qual se formou o primeiro grupo da escola.

“A vida pública foi uma convocação do presidente Castelo para assumir a Secretaria da Fazenda de São Paulo, quando o Laudo, vice-governador, substituiu o Ademar. O Ministério da Fazenda foi consequência de uma exposição ao presidente Costa e Silva sobre os problemas agrícolas do país. Era a primeira vez que eu o via. Nisso houve uma influência muito grande do Andreazza. Eu tinha continuado secretário da Fazenda do governo do Sodré. Sai de lá para o Ministério. Desde 52 sempre cooperei com o governo, participando da formulação de alguns planejamentos. No governo Carvalho Pinto, participei do Plano de Ação. Fiquei lá de 59 a 63. Antes disso já tinha trabalhado no planejamento da bacia Paraná-Uruguai. Em 64, 65, tinha-se criado o Consplan, com o Roberto Campos. Fui convidado para participar. Junto com o Graciano Sá e com um grupo que estava tentando verificar o que podia acontecer com o país em dez anos, trabalhamos muito na formação de um plano” – disse Delfim em 1977, quando eu escrevia na revista “Status”. Ele era assim: do poder, pelo poder e para o poder.

Havia um José Maria Alkmin na política do Pará

Resultado de imagem para sebastiao nery + folclore politicoSebastião Nery

A sabedoria política nacional acha que ela só existe em Minas, Bahia, São Paulo, no nordeste e no sul maravilha. No entanto ela está espalhada de norte a sul. Por exemplo: o Pará teve um José Maria Alkmim que durou décadas: João Botelho.

João Botelho foi candidato a prefeito de Belém. Passou o dia inteiro anunciando um comício à noite, na praça Brasil. Chegou lá, não havia ninguém. Imaginou um engano, perguntou ao secretario.

– Não houve engano não, deputado, a praça é esta mesma?

Foi ao bar mais perto, pediu dois caixotes de madeira, pôs no centro da praça, subiu e passou a berrar alucinado:

– Socorro, socooorro, socoooooooorro!

Correu gente de todo lado para ver o que era. Assegurada a plateia, ele começou o comício:

– Socorro para um candidato…

E fez o comício.

MORTE DO AMIGODeputado no Rio, passou muito tempo sem ir a Belém. Quando foi, encontrou na rua o filho de um grande amigo:

– E o velho? Ainda não tive tempo de abraçá-lo.

 – Papai faleceu, deputado.

Desculpou-se como pôde, a vida absorvente do Congresso, a longa ausência da terra:

– Aceite minhas condolências, extensivas a todos os seus.

Dias depois, volta a encontrar-se com o rapaz:

– E o velho?

– Eu já disse, deputado. O papai faleceu.

– Ah, foi mesmo. Esta minha cabeça! Mas nunca é demais renovar a expressão de meu pesar. E deu-lhe um longo abraço. Semanas depois, novo encontro. Foi começando:

– E o velho?

Mas emendou logo: – O velho sempre morto, não é? Sempre morto.

CAPITÃO FARDADO Secretário de Segurança, recebeu em audiência um capitão do Exército, fardado:

– Tenha a bondade, major.

– Major, não, doutor Botelho, capitão.

– Mas é major na promoção de minha amizade.

Depois, encontra um cabo eleitoral:

– Como vai? E a diletíssima esposa? E as crianças?

– Tudo bem, deputado. A mulher está ótima. Mas, por enquanto, é um menino só.

– E eu não sei que é um filho só? É um menino, certo, mas que vale por muitos. Então, como vão os meninos?

PELO TELEFONE Já fora da política, no Rio, precisava conseguir uns esclarecimentos no Instituto Félix Pacheco. Ia saindo, o colega da Procuradoria da Caixa Econômica chamou a atenção para o calor desesperado que fazia lá fora:

– Mas você sair daqui desse ar refrigerado e enfrentar o sol da avenida, a pé, até a rua Venezuela? Por que não telefona?

Disse que pelo telefone eles não informam. Mas ligou, fez voz macia:

– Meu filho, aqui fala Monsenhor Botelho, do Palácio São Joaquim. O senhor cardeal deseja uma informação.

O funcionário anotou, saiu do telefone alguns instantes e voltou com todos os esclarecimentos.

– Muito obrigado, meu filho. Que Deus abençoe e a mim não desampare. Quando puder venha tomar um café com o velho Monsenhor Botelho.

Histórias do folclore político de Magalhães Barata

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Barata tornou-se o “dono” do Pará

Sebastião Nery

Magalhães Barata, revolucionário de 1924 a 1930, interventor de 1930 a 1945, constituinte de 1946 , senador de 1946 a 1954, governador de 1955 a 1959, amigo de Getúlio Vargas, mandou 35 anos no Pará. Um dia Abelardo Conduru, respeitável chefe político, rompeu com ele. Fez carta, mandou um vaqueiro levar. Barata abriu, leu, ficou indignado. Conduru mandava tirar o nome da chapa do governo e comunicava que seria candidato pela oposição. Chamou o mensageiro até o gabinete:

– Quer dizer que o doutor não quer ser mais candidato? Preciso substituí-lo hoje. Como é o seu nome?

– José Pingarrilho.

– Bom nome. Ótimo nome para voto. O senhor vai ser candidato no lugar do doutor Conduru.

– Não posso, governador. Sou amigo dele, empregado dele e não entendo nada de política.

– Nada disso. Vai ser, sim. Quem manda no Pará sou eu.

Pegou um papel, escreveu ao dr. Conduru:

– “Recebi sua carta, lamento a desistência, mas já providenciei o substituto. É o José Pingarrilho, nosso amigo comum, um nome à altura das tradições do Pará.”

Foi eleito, derrotando o patrão Conduru.

TARTARUGAS – Um compadre, notório contrabandista, chegou ao posto fiscal de Belém com muitas tartarugas e não quis pagar imposto:

– As tartarugas são presente para o compadre Barata.

O fiscal telefonou para o chefe, que telefonou para o secretario do governador, que falou com o governador.

– Diga ao compadre que presente se dá completo. Ele que pague o imposto e mande logo as tartarugas.

MUDAR DE NOME – Foi visitar uma cidade do interior. Em frente ao trapiche, onde desembarcou, ficava o “Grupo Escolar Zacarias de Assunção” (o general Assunção era da UDN e tinha sido governador antes dele, derrotando-o). Chamou o prefeito:

– Este grupo vai mudar de nome. Vai chamar-se Magalhães Barata, que é quem manda no Pará

Chama-se até hoje.

LADRÃO CONHECIDO – Governador, mandou fazer concorrência para todos os fornecimentos ao Palácio. Vieram as listas de preços, ele mesmo quis conferir. De repente, vê uma firma oferecendo tudo mais barato (Manoel Gonçalves e Filhos, famosos pelos preços altos que sempre cobravam). Escreveu embaixo:

– “Indefiro. Eu te conheço, ladrão”.

Interventor do Pará desde a revolução de 1930, Magalhães Barata prendeu um filho de José Augusto Meira Dantas, professor da Faculdade de Direito, velho chefe político do Estado, depois senador. Meira Dantas telegrafou a Getúlio Vargas protestando. Getúlio encaminhou o telegrama a Vicente Rao, ministro da Justiça, que mandou um rádio ordenando soltar o rapaz.

Barata estava de saída para uma solenidade no bairro da Pedreira, em Belém. Subiu ao palanque, leu o telegrama e gritou para a multidão:

– Não vou soltar, não. Com Rao ou sem Rao, comigo é no pau.

E não soltou.

LICENÇA-MATERNIDADE – Uma professora do Estado requereu licença-gravidez para o parto do quinto filho. Mandou investigar, soube que ela tinha votado com a oposição. Pegou o processo, deu o despacho:

– “Indefiro. Nego a licença. Gravidez não é doença. Apanha-se por gosto.”

Tinha um candidato a prefeito de Santarém. O diretório municipal do PSD queria outro. Vendo que ia perder, foi lá, conversou, pediu, fez a eleição. Perdeu mesmo: 15 x 5. Levantou-se, pegou o microfone:

– Meus senhores, pela primeira vez a minoria vai ganhar. Está escolhido o candidato que perdeu. Todo mundo bateu palmas. Ele encerrou os trabalhos:

E, pela primeira vez, a minoria ganhou por unanimidade.

O sonho do sultão e as “fake news”

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Donald Trump acha que agora só tem “fake news”

Sebastião Nery

Um sultão todo poderoso acordou desesperado. Sonhou que havia perdido todos os dentes. Ao despertar, mandou chamar o adivinho da Corte para as devidas interpretações.

– Que sonho terrível! Cada dente perdido significa a perda de um parente de Vossa Majestade.

– Como te atreves a dizer-me semelhante coisa? Fora daqui, insolente!

Enfurecido, o sultão chamou os guardas e ordenou que lhe dessem 50 chibatadas.

Mandou chamar outro bruxo, que foi logo interpretando o sonho do sultão:

– Meu grande e excelso senhor! Grande felicidade vos está reservada. O sonho significa que haveis de sobreviver a todos os vossos parentes.

O sultão sorriu. Sua fisionomia iluminou-se. Chamou o guarda e mandou dar 200 moedas de ouro ao novo adivinho.

Quando o adivinho saía do palácio, um guarda lhe disse ao pé do ouvido:

– Incrível, sua interpretação do sonho foi a mesma de seu primeiro colega. Ao primeiro, o sultão mandou dar 50 chibatadas. A você 200 moedas de ouro.

– Meu amigo, tudo depende da maneira de dizer. O fato é o mesmo, a comunicação pode ser interpretada a favor ou contra. O importante é dizer o que a plateia ou o interlocutor quer ouvir.

UMA ARTE – Conclusão: a comunicação é uma arte. É como pedra preciosa. Se atirarmos nos olhos de alguém, pode ferir. Se a embalamos e oferecemos com ternura, é amizade e alegria.

Em tempos de “fake news”, de buscar todas as mídias para se tornar conhecido e de fazer da comunicação uma ferramenta de primeira necessidade, nada como relembrar de um texto de anos atrás.

Na França o debate sobre as “fake news” esta indo a pleno vapor. Quem é a favor, aplaude, quem é contra, repele. O presidente Emmanuel Macron, que é um líder moderno e esperto, já encontrou a solução: vai fazer uma lei que está sendo chamada Lei da Primavera, para definir as “fake news”. Já começa enquadrando os ingleses e americanos. Se a França tem como traduzir por que pedir a tradução em inglês?

APOIO DOS FRANCESES – O anúncio de Macron informa que a pesquisa Odoxa mostra o apoio dos franceses ao projeto para lutar contra as “fake news” em período eleitoral.

Este movimento pode fazer temer uma rejeição maciça à ideia. De fato, sobre 54.300 mensagens postadas em quatro dias, praticamente a metade exprimia uma rejeição clara ao controle dos conteúdos pelo Estado.

O espectro da censura foi largamente denunciado mas essas reações refletiram sobretudo a visão deformadora da realidade da opinião pública. Em compensação a opinião pública no conjunto, tem largamente uma posição contrária. Este é o ensinamento maior da sondagem.

FAKE NEWS – A expressão designa falsas informações que circulam na internet, afinal vazia de sua substância. O Figaro chama a atenção para o termo que surgiu na campanha presidencial americana. Apareceu finalmente no dicionário de Donald Trump. Nas últimas semanas o presidente dos Estados Unidos não parou de denunciar as “fake news”: compreendam, as informações segundo as mentiras das mídias desonestas.

O que é uma “fake news”? Dar uma definição curta que engloba todas as facetas não é coisa fácil, sobretudo em francês. Sempre traduzida por “falsas informações” a expressão “fake news” perdeu uma parte de seu senso original. O inglês distingue “fake” de “falso”, o que é errado, o que é falsificado.

Aventuras de David Lehrer, um guerrilheiro libertário na volta ao mundo

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Lehrer, antes de tudo, um grande humanista

Sebastião Nery

Desci no aeroporto de Portela de Sacavém, em Lisboa, contratado pela Editora Francisco Alves para escrever um livro sobre a “Revolução dos Cravos” de 25 de abril de 1974. Passei no hotel Phenix, na Rotonda do Marquês de Pombal, deixei a mala, telefonei para Marcio Moreira Alves, exilado lá, cuja casa era a embaixada dos brasileiros em Lisboa. Atende outro:

– Nery, aqui é o David Lehrer.

– O guerrilheiro africano? Estou indo para aí agora.

Dez minutos e o táxi me deixava na rua Sant’Ana em Lapa, onde ouvi a mais extraordinária historia de guerra e política vivida por um brasileiro no exílio. Fiquei comovido:

– David, vamos arranjar um gravador para escrever um livro.

Depois de quatro horas de gravação, David empacou: – Não dá mais, Nery. Mais para a frente a gente continua.

SEM GRAVAÇÕES – Não houve mais para a frente. Passei uma semana revendo os amigos, Marcito, Irineu Garcia, Moema Santiago e Domingos, Alfredo Sirkis, Mauricio Paiva, a colônia brasileira exilada, e perambulando com David pelas velhas ruas entre vinhos e bacalhaus, arrancando dele, sem gravador, pedaços de suas fantásticas historias. Logo David começou a dar aulas na Faculdade de Medicina de Lisboa, esperando o fim do exílio.

A aventura de David explica a multisecular tragédia da África e o fim do poder fascista do salazarismo português.

Paulista de 1937, filho de imigrantes poloneses, formado em 1961, em 62 era medico do Sindicato os Metalúrgicos de São Paulo e se elege vereador pelo Partido Socialista. No golpe de 64, preso durante dois meses numa cela com o historiador Caio Prado Junior, o físico Mario Shemberg e o medico Feruz Gicovati, presidente do PSB paulista. Sai e em 65 é vice de Franco Montoro, do PDC para a prefeitura de São Paulo. Perdem.

ESPANCAMENTO – Em 66, deputado federal pelo MDB. No AI-5 de 13 de dezembro de 68, é preso na madrugada de 17 de dezembro, barbaramente espancado, costelas e rosto quebrado. Em 31, é cassado na lista de Carlos Lacerda, 10 deputados e 2 juízes.

Solto, tem a prisão preventiva decretada. Atravessa clandestino a fronteira do Brasil com o Uruguai, exílio. Do Uruguai, pelo Chile, vai para o Peru. Governo do general “nacionalista” Alvarado. No sequestro do embaixador Elbrick, dos Estados Unidos, escreve um artigo sobre a resistência armada no Brasil, leva à revista “Oyga”, a melhor do pais, dizendo ao diretor Francisco Igartua que é jornalista, embora nem soubesse bater à maquina. Dois meses depois, já era o redator-chefe.

Em maio de 71, o maior terremoto da historia do Peru soterra varias cidades e mata 300 mil pessoas. Atravessando a pé dezenas de quilômetros, por dentro do frio andino, foi o primeiro jornalista a chegar à cordilheira. Nos Andes, reencontra a medicina, resolve urgências, cura feridos, engessa braços.

VAI PARA PARIS – Volta, critica os ministros militares. Tomam seu visto. Recebe da França uma bolsa para estagiar em um grande hospital de Paris. Durante três anos dedica-se à cirurgia e ao vinho. Sua atividade política limitava-se a conseguir tratamento médico para os exilados brasileiros sem direito à Previdência e a operar vitimas das torturas no Brasil.

Encontrei-o numa noite interminável de vinhos e ele me disse que ia largar tudo para entrar na primeira guerra de libertação que o aceitasse.

Amanhecia sobre o Quartier Latin e David, com os passos avinhados,caminhava para alguma turbulenta trincheira do mundo.

Santa Catarina dá ao Brasil uma lição de desenvolvimento

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Santa Catarina é o Estado com menos desemprego

Sebastião Nery

Câmara Cascudo, gênio de Natal, iluminado pelo sol e pelo sal, ensinou há muitos anos: – “O Brasil não tem problemas. Só soluções adiadas”.

Na geografia dos estados brasileiros, a relação na distribuição de renda, por habitante, é indecorosa. Nas diferentes regiões, das mais prósperas às mais pobres, a realidade é de monstruosa concentração de renda nacional. Na desigualdade por unidade federativa, em 2014, o Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios) levantou dados para aferir o padrão de vida dos brasileiros.

Em 2017, o estudo “Inquality in Brazil: a regional perspective”, dos economistas Izabela Karpowicz e Carlos Góes, divulgado pelo FMI e Banco Mundial, comprova a abissal distância entre ricos e pobres. O diferencial focou a renda mensal dos 5% mais ricos e os 5% mais pobres.

DESIGUALDADE – No mais desenvolvido, o Estado de São Paulo, os 5% mais ricos têm renda de R$ 8.200,00 e os 5% mais pobres R$ 165,00. No Rio de Janeiro, fica em R$ 7.600,00 e R$ 141,00; no Paraná, R$ 7.600,00 e R$ 197,00; em Minas Gerais, R$ 7.700,00 e R$ 147,00; no Rio Grande do Sul, R$ 7.700,00 e R$ 175,00; na Bahia, R$ 6.300,00 e R$ 82,00; já no Distrito Federal, a desproporção é escandalosa, demonstrando o poder da burocracia pública: os 5% mais ricos têm rendimento de R$ 12.900,00 ficando os 5% mais pobres com R$ 151,00. A desigualdade de renda, na totalidade dos Estados, tem o perfil dos números exibidos naquela amostragem. Alagoas é onde esse diferencial é mais brutal, expresso com R$ 4.800,00 e R$ 67,00.

Nesse cenário devastador, o Estado diferencial entre as duas faixas de renda é Santa Catarina. Longe de ser um paraíso é quem apresenta números sobre a desigualdade da renda, 30% menores do que a média do país. A renda mensal média dos 5% mais ricos é de R$ 6.400,00 e os 5% mais pobres é de R$ 285,00.

A realidade catarinense não se expressa apenas nesses números, ainda muito distantes do que deveria ser uma sociedade com efetiva justiça social, mas retratam um nível superior à media das outras 26 unidades federativas brasileiras. Nas suas diferentes regiões, vem demonstrando o que pode ser feito para o Brasil superar o estágio de brutal concentração de renda.

MENOS DESEMPREGO – Ainda agora com o Brasil mergulhado na recessão econômica, da qual vem saindo aos poucos, o desemprego nacional é de 12,4%. Já em terras catarinenses, atestado pelo IBGE, o desemprego é de 6,7%. Fruto de um ajuste produtivo, da modernização industrial, da competitividade e da atração de novas empresas de bases tecnológicas. A educação é a matriz sustentadora dessa realidade.

Se o setor produtivo tem um vigor acima da média brasileira, exibe no seu vasto e belo litoral uma estrutura turística inigualável, fruto de trabalho criativo expressado na fisionomia de um povo que tem o prazer de servir ao turista a alegria de viver. Hotéis dos mais sofisticados aos mais simples, pousadas surpreendentes pelo nível de conforto, restaurantes com padrão internacional, em Florianópolis, Camboriú, Itapema, Barra Velha, Joinville, Blumenau e ao longo das suas praias belíssimas.

É UM EXEMPLO – Nesse instante da vida nacional de descrença no futuro, de profunda crise moral, de valores abandonados e contestados, a terra de Anita Garibaldi exibe padrão econômico, social e de lazer que deve merecer sérias reflexões para os brasileiros que acreditam no futuro.

Esta é a lição do professor paranaense Hélio Duque que entende de Paraná, de Santa Catarina e do Brasil.

### Fim de ano é férias. Volto em janeiro.

Um gordo chamado Jô (ou um gênio chamado Jô)

Jô Soares, grande artista, grande figura

Sebastião Nery

Talvez o título mais correto fosse: “Um Gênio Chamado Jô”. Essa história está recontada no magnífico livro de Jô Soares e Matinas Suzuki Jr, “O Livro de Jô”, da Companhia das Letras, que tanto sucesso está fazendo.

“A história mais famosa de Gilberto Amado foi relatada por Sebastião Nery no seu Folclore Político, envolvendo um diálogo entre ele e Getúlio Vargas. Aproveitamos esse caso em meu espetáculo “Brasil: Da Censura à Abertura, de 1980, que escrevi com Armando Costa e José Luiz Archanjo, baseado no anedotário político nacional recolhido por Sebastião Nery, cujo elenco era composto de Marília Pera, Sylvia Bandeira, com quem eu estava casado então, Camila Amado, Marco Nanini e Geraldo Alves. Eis o trecho:

“- Presidente, eu quero ser governador de Sergipe.

– Por que, Gilberto?

– Porque eu quero. É a hora.

– Mas, Gilberto, tu, um homem tão grande, ser governador de um estado pequeno?

– Eu quero dirigir minha tribo, presidente. Isso é fundamental pra minha vida.

– Ora, Gilberto. Eu te conheço muito bem. Essa não pode ser a verdadeira razão.

– Claro que é, presidente.

– Não pode ser. Governar por governar? Isso não existe para um homem do teu tamanho, da tua grandeza.

– Tem razão, presidente. O senhor quer que eu diga, eu digo. Eu quero ser governador pra roubar, roubar, roubar do primeiro ao último dia! (Andando de um lado para o outro) Roubar desesperadamente! Ouviu, presidente? Roubar! Roubar! Roubar!

UM DISCURSO DE DUTRA – Outra história, esta em homenagem ao general Dutra:

Casado e calado. O presidente Dutra foi, talvez, o nosso político mais calado desde o tempo em que ele era ministro da Guerra. Levantava-se todo dia às quatro da manhã, fazia uma inspeção na Vila Militar e às seis e meia estava no ministério. Ia sempre acompanhado de um ajudante de ordens que nunca lhe ouvia a voz. Uma manhã, assim que ele chegou, o então major Humberto de Alencar Castello Branco (futuro primeiro presidente da ditadura militar), oficial de gabinete, perguntou ao ajudante de ordens, capitão Fragomeni:

– Então? Como é que está o homem hoje?

– Ótimo. Até conversou muito comigo.

– Não me diga!

– Conversou sim. Quando a gente chegou na altura do Maracanã, ele respirou fundo e disse: “Tá quente hoje!”.

– Puxa! E olhe que ele não é de fazer discurso longo de manhã.”

UM ALMOÇO COM CLOUZOT – Dos 4 aos 79 anos, Jô é ator, escritor, diretor de teatro, músico. Ele conta:

“Em Paris, meu pai almoçava com Gilberto Amado e eu fui encontrá-los. O menu do restaurante da Maison de l´Amérique Latine variava conforme o dia da semana, oferecendo um prato típico dos países da América Latina. Sábado era o dia da feijoada e fomos nos encontrar com os brasileiros que viviam na capital francesa. Gilberto Amado estava lá com sua filha Vera e o genro, o famoso cineasta francês Henri-Georges Clouzot. A atriz Vera Clouzot, como ficou conhecida, aparecera em 1953, no ótimo filme realizado pelo marido, “O salário do medo”, que ganhou o Gran Prix no Festival de Cinema de Cannes e o Urso de Ouro no Festival de Cinema de Berlim.

Apesar do sucesso de Clouzot, seu sogro, Gilberto Amado, homem de opiniões fortes, o detestava. A dada altura da feijoada o diretor se levantou para ir conversar em outra mesa, e Amado não perdeu tempo. Virou-se para Vera e falou:

– Por que você não põe chifres neste homem? Você tem que cornear este homem, ele é um chato!”

“O bom humor é a única qualidade divina do homem”, ensinava Marzagão

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No México, Marzagão foi dirigente da Televisa

Sebastião Nery

Eleito presidente, Tancredo Neves foi aos Estados Unidos e Europa. Passou pelo México. Augusto Marzagão, vice-presidente da Televisa, a maior televisão do México, organizou uma entrevista coletiva. Desde a Copa de 70, quando o Brasil ganhou o tri com a maior seleção mundial de todos os tempos, os mexicanos são siderados pelo futebol brasileiro. Um jornalista perguntou a Tancredo: “Presidente, é fácil ser eleito presidente da República no Brasil?’

– É, sim. Difícil é ser escolhido técnico da seleção brasileira.

Eleito presidente da república, Jânio também deu suas voltas por ali: Estados Unidos, Europa. Foi ao rancho de férias do recém- eleito presidente John Kennedy. Na beira da piscina dois jovens senhores tomavam um drink. De repente Jânio percebe que eram Kennedy e Marzagão, já íntimos. Jânio se espanta:

– Esta demitido senhor Marzagão. No meu governo nenhum auxiliar vai à frente do Presidente.

Kennedy deu uma gargalhada e ficaram os três papeando à beira da piscina.

MARZAGÃO – Quem entendia de Augusto Marzagão era Silvestre Gorgulho, amigo, aliado, irmão. O Brasil perdeu o humor e a competência do bruxo da comunicação. Alto, elegante, culto, foi uma bela biografia internacional. Quando diretor do Instituto Brasileiro do Café em Trieste, na velha Iugoslávia, Marzagão conviveu com estadistas, jogava biriba com seu amigo Cardeal Giovanni Montini, de Milão, depois Papa Paulo VI. Tomava uísque com John Kennedy à beira da piscina de Camp David, casa de fim de semana dos presidentes americanos. Tinha um rol de amigos artistas e compositores na sua agenda cultural.

De volta ao Brasil, em 1965, Marzagão foi trabalhar na Secretaria de Turismo do Estado da Guanabara, onde conheceu o advogado Carlos de Laet, que atentamente ouviu seus planos para a realização, no Rio de Janeiro, de um Festival de Música Popular. O governador Negrão de Lima vibrou e apoiou. E assim nasceu o FIC – Festival Internacional da Canção.

Os FIC’s mudaram e enriqueceram, não só a música popular brasileira, mas a própria vida inteligente do País. A nova musica brasileira e baiana, João Gilberto, Gilberto Gil, Caetano Veloso, os Doces Bárbaros, nasceram ali.

FAMA DE BRUXO – Marzagão, em 1988, faz valer sua fama de Bruxo a serviço de Jânio Quadros (eleito prefeito de São Paulo) e, depois, secretário particular do Presidente José Sarney.

Seus textos, suas conferências, seus livros e suas anedotas estão ainda muito vivos. Tenho em meus alfarrábios o projeto que Marzagão preparou para fazer em Brasília um grande Festival Internacional da Canção.

Guardo em mim uma inesquecível lição dele cada vez mais verdadeira: “O bom humor é a única qualidade divina do homem”.

Dom Helder sem Marx, na fase mais dura do regime militar…

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A Bahia fazia 400 anos, em 1949. Houve um congresso eucarístico em Salvador. Muitos bispos e padres se hospedaram no nosso multissecular Seminário Central, que é hoje o magnífico Museu de Arte Sacra, com suas imensas janelas coloniais. Cada um de nós do Seminário Maior ficou encarregado de secretariar um bispo ou um padre. A mim, com 17 anos, coube o magérrimo, falante e simpático padre Helder Câmara. Ajudei-lhe as missas, carreguei o Breviário, acompanhei-o pela cidade, a caminho dos atos públicos do congresso.

Uma noite, ele teve uma longa conversa com professores e seminaristas, sobre o país e a política. Tínhamos alguns padres fervorosamente integralistas. Lembro uma frase dele: “Também eu fui algum tempo integralista. Naquela época, depois da revolução de 30, o Brasil se dividia entre o Integralismo cristão e o Comunismo ateu. Fiquei com o Integralismo cristão. Hoje temos a doutrina social da Igreja, mais cristã e mais profunda que o Integralismo”.

UM BILHETE – Em 1964, depois do golpe, ele já arcebispo de Olinda e Recife, mandou para o quartel do 19º BC do Exercito, em Salvador, onde sabia que eu estava preso, um bilhete que só me foi entregue na saída: “Meu caro sacristão. Estão maltratando você? O Cristo há de lhe dar forças. Rezemos. (as.) Padre Helder”.

Numa tarde de 1971, eu estava na avenida Rio Branco, no Rio, na pequena redação do “Politika”, o primeiro semanário de oposição ao golpe de 64 (houve o Pif-Paf e havia o Pasquim, mas eram de humor).

Fundado e dirigido pelo saudoso Oliveira Bastos e por mim, o jornal enfrentava uma dura censura prévia toda semana. Apareceu o jornalista, professor e escritor pernambucano Harrison de Oliveira, mestre de história do Colégio Pedro II e da Universidade Cândido Mendes, com uma jóia rara.

UMA ENTREVISTA – Harrison tinha na pasta uma longa e polêmica entrevista de Dom Helder Câmara, o valente arcebispo de Olinda e Recife, que estava desafiando a ditadura aqui dentro e denunciando-a em conferências pelo mundo. O padre Henrique Neto, assessor dele, tinha sido barbaramente assassinado. Era no governo Médici, uma censura terrível e Dom Helder falava sobre o Nordeste, o Brasil, o mundo e a Igreja. Harrison, amigo e compadre dele (tem um filho chamado Helder), não conseguiu publicar a entrevista em nenhum jornal. Não deixariam sair também no “Politika”.

Oliveira Bastos estava no Pará, resolvi não mandar a entrevista para a censura, publicar de surpresa e ver no que dava. Deu no que deu. Fizemos a capa com uma foto grande de Dom Helder e apenas esta manchete: “Dom Helder entre Cristo e Marx!

SEM MARX – Harrison telefonou avisando para Dom Helder, que vetou: “Não estou com Marx coisa nenhuma. Sou de Cristo e dos meus pobrezinhos”.

Quando o jornal ficou pronto, estávamos preparados para o que desse e viesse. De madrugada, entupimos a kombi do jornal e iamos felizes e vitoriosos para a Distribuidora Chinaglia, na Zona Norte. Na praça Mauá, já na espreita, um carro da polícia nos cercou.

Prenderam tudo: o jornal, eu e o Harrison. Foi um dia inteiro de ameaças e sufoco na Polícia Federal. Ficaram furiosos com o nosso golpe falho. Por pouco não conseguimos. Diziam: “Sobre Dom Helder, nem a morte da mãe”.

A hora da Previdência, que foi resultado de muitas lutas históricas

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Charge do Pelicano (Charge Online)

Sebastião Nery

Os poetas sabem das coisas. Fernando Pessoa, como poucos: – “O homem e a hora são um só / quando Deus faz e a historia é feita / O mais é carne, cujo pó / a terra espreita”. Os três acabam sendo uma coisa só: o homem, a hora e a história. A história é a hora acontecendo. Na hora, o homem faz a história acontecer. Com as lutas do homem, a história vai surgindo do ventre do tempo.

Cada passo dado no Brasil, ao longo de dois séculos, para construir a Previdência Social, foi fruto de todo um longo e penoso processo, permanente e irreversível. Cada fato precedido de muitas e muitas lutas.

BELA HISTÓRIA – É uma bela história, que ninguém contou melhor do que uma brilhante equipe do ministério da Previdência, comandada por Jorceli Pereira de Sousa, que pesquisou, organizou, escreveu, em 2002, com seus companheiros Mônica Cabañas Guimarães, Vinicius Carvalho Pinheiro, Delubio Gomes Pereira da Silva, Tereza Augusta dos Santos Ouro e Francisco Orru de Azevedo, o livro “Os 80 Anos da Previdência Social”.

Os três grandes marcos da Previdência no Brasil são a lei do paulista EloY Chaves, de 1923, governo de Artur Bernardes, a criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio (e Previdência), por Lindolpho Collor (avô de Fernando Collor), na “revolução” de 30, governo de Vargas, e a Lei Orgânica da Previdência Social (nº 3.807) de 1960, governo de Juscelino, projeto do inesquecível deputado Aluizio Alves, do Rio Grande do Norte.

MUITAS LUTAS – Mas as Nações não caem do céu, como estrelas. Para cada vitória, sempre muitas lutas. A primeira medida governamental com efeito prático foi o decreto 9.912, de 26 de março de 1888, regulamentando o direito à aposentadoria dos empregados dos Correios. Também em 1888, foi criada uma Caixa de Socorros em cada uma das Estradas de Ferro do Império.

Ainda nos fins do século XIX, foram instituídos o Fundo de Pensões do Pessoal das Oficinas de Imprensa, a aposentadoria para os empregados da Estrada de Ferro Central do Brasil, posteriormente estendida a todos os ferroviários, o Montepio Obrigatório dos empregados do ministério da Fazenda e a aposentadoria por invalidez e pensão por morte para os operários do Arsenal da Marinha do Rio de Janeiro e seus dependentes.

Era a Previdencia Social engatinhando.

SEGURO – Em 1894, José Joaquim de Campos da Costa Medeiros e Albuquerque, senador por Pernambuco, apresentou projeto criando um seguro contra acidentes do trabalho.

Em 1908, o sergipano Mauricio Graco Cardoso, e o paulista Altino Arantes, depois presidente de São Paulo, de 1916 a 20, também apresentaram projetos criando o seguro de acidentes do trabalho.

Em 1917, o deputado Mauricio de Lacerda, do Rio (1912 a 20), jornalista, vereador e prefeito de Vassouras, pai de Carlos Lacerda, defensor das lutas e greves dos operários, um dos fundadores da Liga Socialista, havia apresentado um projeto criando o Código do Trabalho, estabelecendo, entre outras medidas, carga horária de 8 horas diárias de trabalho e proibição de trabalho aos menores de 14 anos.

HOUVE REAÇÃO – Todo o empresariado (como sempre, no Brasil) ficou logo contra o projeto de Mauricio de Lacerda, que não foi adiante. Mas Fernando Pessoa sabe mais do que a CNI, a Fiesp, a Firjan e todos os dinossauros patronais: – “O homem e a hora são um só, quando Deus faz e a historia é feita”

Como o poeta, o povo também sabe: o Bolsa Família é a Aposentadoria dos pobres e a Previdência dos miseráveis.

Comprada por FHC, a reeleição se tornou a mãe da corrupção

Resultado de imagem para reeleição + fhcSebastião Nery                     (Fotocharge reproduzida do site GGN)

Há 2.500 anos, na Grécia, Péricles chamou o povo para a praça pública e mandou decidir tudo pelo voto. Começava ali a civilização. Cada um valendo um. O voto é o homem como um animal igual. É a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade. Com a roda, a pólvora, a eletricidade, o rádio, a televisão, a Internet, o homem mudou o mundo. Mas quem mudou o homem foi o voto. O voto fez o homem ser e se saber igual. Não enche barriga, mas derruba as tiranias.

A emenda da reeleição de Fernando Henrique foi comprada. A imprensa provou. Todo mundo sabe. Deputados renunciaram ao mandato com a boca na “botija” de Sergio Motta. A reeleição é uma rima de cão. É a vitória irrefreável da corrupção em todos os níveis: presidência, governadores e prefeitos.

INSULTO À NAÇÃO – Quando Fernando Henrique comprou a reeleição, Paulo Brossard, deputado, senador, ministro da Justiça e do Supremo Tribunal Federal, escreveu:

“A reeleição é um insulto à Nação, aos 150 anos do Brasil independente, a todos os homens públicos que passaram por este país. Se os generais tivessem querido, também teriam sido reeleitos. Não faltariam apoios.

Pois bem. Foi preciso que chegasse à presidência da Republica não um militar, não um general, mas um civil, não um homem de caserna, mas um professor universitário, para que o Brasil regredisse ao nível mais baixo da América Latina em matéria de provimento da chefia do Estado.

A Constituição brasileira, na sua sabedoria, proibiu a reeleição dos presidentes. Sempre se vedou a eleição de Presidente para o período imediato.

Bastou um presidente ambicioso e sem senso de respeito à visão histórica nacional, para que a Constituição mudasse a favor de seu intento”.

DISSE DA TRIBUNA – Josafá Marinho, senador, foi para a tribuna mostrar o crime da reeleição:

– “A Constituição de 88 instituiu a inelegibilidade absoluta, para os mesmos cargos, inclusive o presidente da Republica. Estipula a inelegibilidade relativa para os titulares que pretendam “outros cargos”, obrigando-os a renunciarem até seis meses antes do pleito.

– “Se o titular dos postos executivos está obrigado a renunciar para habilitar-se à eleição de “outro cargo”, por maior razão lógica há de ser compelido ao afastamento definitivo para a reconquista do “mesmo lugar”.

– “O fundamento moral e político de resguardo da liberdade do voto e de igualdade entre os candidatos, que o força a deixar o cargo pretendendo “outro”, cresce se seu propósito é ser reconduzido ao “mesmo” posto, de onde pode exercer influência preponderante no processo eleitoral”.

REELEIÇÃO COMPRADA – Não adiantou a reação dos dois ilustres juristas e da maioria da Nação. Fernando Henrique “ronivonou” o Congresso e a reeleição foi comprada.

(O ex-deputado RONIVON Santiago (ex-PFL, PMDB e PP) foi mascate da reeleição. O ex-deputado e delator da Lava Jato Pedro Corrêa (PP-PE) revelou que Ronivon admitiu ter recebido R$ 200 mil para apoiar a reeleição).

A reeleição é o princípio e o fim de todo tipo de corrupção por um motivo claro: no exercício do poder governadores, presidente e prefeitos têm muito mais força para negociar obras, superfaturar projetos e multiplicar apoios com dinheiro público. O Mensalão mostrou isso e o Petrolão tirou a prova dos nove, comprovando que reeleição rima com corrupção no mais alto grau de depravação.

Voto e alternância de poder são a mais antiga e duradoura invenção social da humanidade.