Lembrai-vos de 1964 e do “dispositivo militar” do general Assis Brasil

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“Dispositivo” de Assis Brasil era uma ilusão

 


Sebastião Nery

Queiroz Junior, jornalista e escritor, conta que, no primeiro semestre de 1937, Flores da Cunha, governador do Rio Grande do Sul, veio ao Rio visitar Getulio. Os dois de charuto na boca:

– Sabe, Flores, os tempos são outros, vou fazer as eleições e a dificuldade em que me encontro é a de escolher um homem verdadeiramente à altura do cargo, que possa continuar minha obra.

– Quem sabe o Aranha (Oswaldo Aranha).

– Tenho pensado nele, mas não serve. O Oswaldo comprometeu-se demasiadamente com os norte-americanos e considero essa política de submissão muito perigosa.

– Talvez o Zé Américo.

– José Américo é um grande romancista, mas um péssimo político.

– Quem sabe se, esquecendo ressentimentos pessoais, não teria chegado o momento de você indicar o Eduardo Gomes.

– Impossível. O Brigadeiro é honesto, íntegro, mas é um carola. Só vive metido com padres e bispos. Com ele no poder, a religião absorveria inteiramente o Estado.

– E o Góis Monteiro?

– O Góis bebe demais. Não pode ser o timoneiro do barco nacional. Poderíamos todos ir ao fundo.

– Então, só nos resta o Ademar.

– Deus nos livre, Flores!

– Bem, nesse caso você está num beco sem saída.

Getulio deu uma longa baforada no charuto:

– Flores, quem sabe se não é isso mesmo que eu quero?

E era. Em 10 de novembro de 37, Getulio deu o golpe.

JANGO E BRIZOLA – No fim de 1963, vim ao Rio (era deputado na Bahia, pelo MTR-PSB), para uma reunião da Frente de Mobilização Popular, comandada por Brizola. Lembro-me bem do Max da Costa Santos e Roland Corbisier (deputados federais do PSB e PTB da Guanabara), do José Gomes Talarico (deputado estadual do PTB da Guanabara e amigo intimo do presidente João Goulart), do Clodesmidt Riani, Oswaldo Pacheco e outros lideres do CGT (Comando Geral dos Trabalhadores), do José Serra e Marcelo Cerqueira (presidente e vice-presidente da UNE), do Paulo Ribeiro e Tarso de Castro (a turma do jornal “Panfleto”) e alguns dos “Grupos dos Onze”.

Pareciam todos judeus, comandados por Moisés, atravessando o Mar Vermelho e chegando à Terra Prometida. Ninguém tinha dúvida nenhuma de que não haveria força humana capaz de nos tirar do poder. A única dúvida ali era sobre quem seria o presidente depois do fim do mandato de Jango, em 65: o próprio Jango ou Brizola.

JK E LACERDA – De Juscelino (meu candidato) e Lacerda, já lançados pelo PSD e UDN, não tomavam conhecimento. Juscelino, por “estar superado”. Lacerda, porque “não podia assumir”. Mas Jango era inelegível (não havia reeleição) e Brizola também, por parentesco (porém, “cunhado não é parente”). A Constituição seria modificada, “na lei ou na marra”.

Jango havia dito a meu saudoso amigo (e dele também) Alaim Melo, um dos lideres do PTB da Bahia : – “Não vou trair a memória do Velho Getulio. Ao Lacerda não passo o governo, em nenhuma hipótese”.

ASSIS BRASIL – Depois da reunião, eu disse a Brizola e ao Max (também baiano):

– Os militares, lá na Bahia, estão conspirando o tempo todo. A Marinha, não sei. Mas até eu já fui convidado por amigos para reuniões com gente do Exercito e da Aeronáutica.

Brizola pediu alguns detalhes, eu dei, não falou nada.O Max zombou:

– É a UDN militar, Nery. Essa gente não aguenta um tiro do dispositivo militar do general Assis Brasil (chefe da Casa Militar de Jango).

Quatro meses depois, estávamos todos, sem uma exceção, cassados, presos ou exilados. O “dispositivo militar” do Assis Brasil não dispositivou um tirinho sequer. Os “Grupos dos 11” eram “romanos”: “Grupos dos II”.

23 thoughts on “Lembrai-vos de 1964 e do “dispositivo militar” do general Assis Brasil

  1. Ri muito, saborosíssimas essas histórias…rs

    Hoje, bem entendido, não desejaria nem um pouco tê-las vivido, na época, muitos equívocos foram cometidos.

    Vivi outros, cujos efeitos ainda são sentidos hoje, e talvez por isso não têm graça nenhuma.

    Mas lembro de uma história contada pelo Arnaldo Jabor: numa festa, um dia antes do golpe de 64 um companheiro militonto da época se vangloriava:

    “Já controlamos a burguesia nacional, só falta agora derrotarmos o imperialismo”.

    Naquela mesma madrugada o Gal. Mourão conduzia pela Rio-Minas a Operação Popeye, com seus tanques velhos dando pane pelo caminho, em direção ao Rio, deflagrando malfadado golpe.

    E o dispositivo do Assis Brasil, nada…

  2. Caro Jornalista,

    Os diálogos comprovam que sempre fomos gado de uma enorme fazenda, sofrendo nas mãos de sucessivos acougueiros e capatazes e que sempre trataram os brasileiros como lixo em um depósito. E, atualmente, existem poucos indícios que a situação tenha se alterado.
    Antes de enalteçcerem os participantes, depõem contra eles, cumpliçces do nosso atual estágio de atraso e subdesenvolvimento. Nazistas dissimulados.

      • Verdade, Levi,

        Com esta carga tão pesada, não é crime nenhum sorrir entre um carregamento e outro.

        Talvez até tenha existido um ou outro presidente brasileiro honesto, mas, com certeza, foram obrigados a governar rodeados pelos piores BANDIDOS deste planeta, conforme a exigência do “sistema” antigo – e do atual.

  3. Essa famigerada nação só tem um jeito, dividir antes que a lama da corrupção, roubalheira e a criminalidade generalizada acabe de vez com ela.

  4. O dispositivo do Gen Assis Brasil, que Jango tinha certeza que protegia o seu governo, é uma das passagens mais cômicas da política brasileira republicana.

  5. Há divergências. O jornalista, dono de uma escrita inigualável – A Vibora – Joel Silveira , escreveu o artigo A Feijoada que Derrubou o Governo , escreveu um artigo nessa direção.
    Já o Darcy Ribeiro que estava dentro dos fatos , disse que a Aeronáutica só não bombardeou a tropa do Mourão pois o Jango não queria derramamento de sangue. … Com quem ficar ?

    • Uma versão não exclui a outra. O tal dispositivo do Assis Brasil não apareceu, mas também nunca foi cobrado, justo porque o Jango não queria derramamento de sangue.

      Além da Aeronáutica, outro general e o Brizola diziam que tinham meios pra resistir, mas o Jango não aceitou, com a mesma alegação.

      • Não lembro desse episódio, sei que, ao contrário, o Brigadeiro Moreira Lima defendeu a posse do Jango. E que na Base Aérea em Porto Alegre os sargentos se amotinaram e não cumpriram a ordem de decolar e bombardear o Palácio do Governo, onde o Brizola, governador, tava entrincheirado, na defesa da Legalidade, movimento pela posse do Jango.

  6. Gabriel,

    A Rússia tem o dobro do nosso tamanho.
    Também tem muita corrupção. E não precisou se dividir.

    O nosso problema não seria tão somente os roubos que Executivo e Legislativo praticam contra o país e povo, mas de não pensarem um momento no Brasil e sua população!

    A nação está sendo dilapidada com seus cidadãos a cada ano mais pobres porque os Poderes constituídos se acham estanques, absolutos, que podem viver percebendo salários milionários porque a cobrança junto ao trabalhador é imposta e facilmente!

    Perigosamente estão deixando de lado que a tampa do caldeirão, que ferve, desse jeito um dia explode, e vai queimar a todos.

    Estúpidos, imbecis, idiotas, corruptos e ladrões, esquecem que o desemprego é a válvula que regularia a temperatura não exceder o permitido à panela, cuja massa excepcional de gente desesperada para trabalhar, um dia chuta o balde!

    A falta de cuidados, de atenção, de importância às carências do povo, fatidicamente nos levarão para esta situação em futuro próximo, pois diferente de uma guerra civil conduzida pela ideologia esta seria pela fome, pelo abandono, pelo descaso, e pelos crimes daqueles que aumentaram as dificuldades para se conseguir trabalho, ao roubarem o dinheiro dos impostos para se locupletar.

    Não precisamos nos dividir, repito, até porque não se tem a menor ideia de como seria esta partilha, convenhamos, a não ser através de uma revolta, mas temos de pensar no Brasil, no seu povo, no desenvolvimento e progressos individuais e coletivos!

    Eu já sugeri duas medidas que, se fossem levadas a efeito, certamente terminaria o desemprego e o país se desenvolveria:
    a) licitação nacional para a construção de ferrovias, rodovias, viadutos, pontes, elevadas, túneis e metrôs.
    A construtora arcaria com os custos integrais dessas obras, empregando a mão de obra nacional, e obtendo como pagamento através de pedágios mantidos por trinta, quarenta anos;
    b) Instalação de cassinos nas áreas mais carentes do Brasil. Norte, Nordeste, Sudeste, em um total de 10, inicialmente.
    Lembro a infraestrutura que um cassino de porte exige, desde hotelaria, restaurantes, locadoras de automóveis, aeroportos, pequenas fábricas de móveis, mecânicas, supermercados, atrações, espetáculos … obviamente esta cidade escolhida sendo uma daquelas que as ferrovias atenderiam!

    Em dois anos o desemprego seria eliminado, e o desenvolvimento iniciaria batendo na nossa porta!

    Abração.

  7. Souza Naves, senador do Paraná (PTB), morreu de infarte em 1.959 com 54 anos. Candidato forte a Governador nas eleições do ano seguinte. Em 1.964, com Souza Naves no Governo, o Paraná não teria aderido ao Movimento de Mourão/Castelo, e a história teria mudado de rumo.

  8. De novo essas baboseiras históricas? Que tal despertar por um instante e verificar que estamos no século XXI. Eu, hein, Rosinha!

  9. Nery eu acompanho de longa data. É um jornalista e escritor do “Folclore Político”. Folclore não é história. Portanto não devemos levar ao pé da letra o que é escrito por Nery. No rigor da análise Nery ou é exagerado ou é mentiroso. É melhor entendermos como folclore o que escreve. Deve ter a minha idade 86 anos. Já foi do PDT. Foi amigo de Brizola escrevendo uma reportágem muito boa sobre a expulsão de Brizola do Uruguai. “Conheço bem a fera”. Escrever uma inverdade sobre Getúlio em 37 só como folclore. Os acontecimentos existiram. Mas não assim como descreve. O dispositivo Militar de Jango comandado pelo General Assis Brasil existia sim. Mas estava preparado para conter os “gorilões” das Forças Armadas. Não fora a Operação Brother Sam, uma força-tarefa com o porta-aviões Forrestal, quatro petroleiros(Santa Inez, Chepachet, Hampton, Roads e Nash Bulk), com um total de 136.000 barris de gazolina comum, 272.000 barris de combustível para jatos, 87.000 barril de gazolina de avião, 35.000 barris de óleo dísel e 20.000 barris de de querozene. Para atender a necessidade dos insurretos, sete aviões de transporte c-135, levando 110 toneladas de armas, oito aviões-tanques, um avião de comunicações e um posto aéreo de comando estabeleceriam uma ponte-aérea, ligando as bases americanas e o Brasil. O General George S. Brown chefiava a operação, que contaria com a participação de uma força-tarefa “ultra-secreta” do Exército, Marinha e Aeronáutica e CIA, posta em ação na base do Panamá. Já baseados nas costas do Espítito Santo. Nery queria resisistência para que o Brasil fosse dividido como foi Corea e Vietinan? “Nery é um folclorista

    • Caro Aquino;

      É por isso que eu levei mais pro lado do humor o texto. Evidente que ninguém pode reproduzir literalmente um diálogo entre duas pessoas, a menos que esteja presente.

      Mesmo que tenha ouvido a narrativa de um dos interlocutores, este nunca a reproduziria fielmente.

      Fica claro, portanto, a intenção ficcional e humorística, que já é uma marca de estilo do Sebastião Nery, um veterano da imprensa escrita.

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