O vento agitava o canavial, nas lembranças nordestinas de João Cabral

Imagem relacionadaPaulo Peres
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O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999), no poema “O Vento no Carnavial”, retrata suas raízes nordestinas.

O VENTO NO CANAVIAL
João Cabral de Melo Neto

Não se vê no canavial
nenhuma planta com nome,
nenhuma planta maria,
planta com nome de homem.

É anônimo o canavial,
sem feições, como a campina;
é como um mar sem navios,
papel em branco de escrita.

É como um grande lençol
sem dobras e sem bainha;
penugem de moça ao sol,
roupa lavada estendida.

Contudo há no canavial
oculta fisionomia:
como em pulso de relógio
há possível melodia,

ou como de um avião
a paisagem se organiza,
ou há finos desenhos nas
pedras da praça vazia.

Se venta no canavial
estendido sob o sol
seu tecido inanimado
faz-se sensível lençol,

se muda em bandeira viva,
de cor verde sobre verde,
com estrelas verdes que
no verde nascem, se perdem.

Não lembra o canavial
então, as praças vazias:
não tem, como têm as pedras,
disciplina de milícias.

É solta sua simetria:
como a das ondas na areia
ou as ondas da multidão
lutando na praça cheia.

Então, é da praça cheia
que o canavial é a imagem:
vêem-se as mesmas correntes
que se fazem e desfazem,

voragens que se desatam,
redemoinhos iguais,
estrelas iguais àquelas
que o povo na praça faz.   

5 thoughts on “O vento agitava o canavial, nas lembranças nordestinas de João Cabral

  1. Eta pernambucano arretado da peste, minhino!
    O cabra quis, simplesmente, insinuar: Antes da gente ir à praça protestar, tem de meter uma dose de cana. Quando tudo parecer redemoinhos e estrelas, é porque o camarada tá calibrado; pronto pra lutar!

  2. Poeta e diplomata para descrever as especialidades do poeta de hoje ainda dá para aceitar – bastaria apenas poeta. Mas tem havido descrições de títulos de arrepiar cabelos de careca neste blog. Há autores em que a lista de títulos é maior do que o soneto: poeta, advogado, escritor, compositor, cantor, pintor – tudo num mesmo artista cuja obra normalmente não faz jus ao primeiro título.
    Parece absurda esta minha observação, mas não é, porque o brasileiro em geral tem o hábito de julgar a qualidade de um profissional pelo número de diplomas ou áreas em que atue. Uma prova desse absurdo é o tratamento de DOUTOR a um simples advogado. Doutor porra nenhuma, excelência porra nenhuma, vossa senhoria porra nenhuma. Chega de palhaçada minha gente.
    Médico ser chamado de doutor, tudo bem porque soam como sinònimos, mas os outros são resquícios de um tempo da senzala.

  3. Como sempre, João Cabral de Melo Neto, o poeta pernambucano arretado ou um dos maiores poetas brasileiros. Neste poema O vento no canavial, vemos a imagem do vento e do canavial que unem e separam o litoral com o interior geográfico, o moderno e o arcaico, o passado e o presente. O canavial ganha um contorno, graças a ação do vento.

    “Se venta no canavial
    estendido sob o sol
    seu tecido inanimado
    faz-se sensível lençol,”

  4. De João Cabral de Melo Neto não se pode deixar falar no “Museu de tudo” como o próprio título indica, consiste num livro que é uma reunião de vários e distintos objetos poéticos.

    Este museu de tudo é museu
    como qualquer outro reunido;
    como museu, tanto pode ser
    caixão de lixo ou arquivo.
    Assim, não chega ao vertebrado
    que deve entranhar qualquer livro:
    é depósito do que aí está,
    se fez sem risca ou risco.

    Cão sem plumas – – que compara um rio passando pela cidade como um cachorro passando por uma rua e sua obra prima: Morte e vida severina. que foi encenada e musicada por Chico Buarque de Holanda. – auto de Natal pernambucano

    O meu nome é Severino,
    não tenho outro de pia. (…)
    Somos muitos severinos
    iguais em tudo na vida:
    na mesma cabeça grande
    que a custo é que se equilibra
    no mesmo ventre crescido
    sobre as mesmas pernas finas,
    e iguais também porque o sangue
    que usamos tem pouca tinta.

  5. André Luís Barros – O senhor citou também João Cabral de Melo Neto. O que acha de sua obra?
    Manoel de Barros – O Cabral é o maior poeta brasileiro de todos os tempos. É um arquiteto da palavra, sabe o que faz com ela. Tem um ritmo dele, totalmente dele, é diferente de todos os outros e tinha que ser, pois ele é um ser. João Cabral é muito limpo.

    (in Caderno Idéias, Jornal do Brasil)

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